O trabalho invisível das mães

O trabalho invisível das mães

Às vezes eu tenho a impressão de que o mundo acha que uma casa bem cuidada e crianças felizes fazem parte de um show de ilusionismo, acontece assim meio como se fosse mágica. Mas na verdade, nos bastidores, para que tudo dê certo, tem alguém fazendo milhões de mini funções invisíveis para o grande público. E na maioria das vezes essa pessoa é você, a mãe.

Eu gostaria de colocar exemplos do trabalho invisível para explicar meu ponto. Mas é quase impossível. Primeiro, porque o trabalho invisível são muitas coisas pequenas juntas e todos os dias. Então se você pega uma pessoa que não exerce o trabalho invisível e tenta explicar o que é, você super se atrapalha, soa quase como drama. É uma conversa super chata, que ninguém tem saco de escutar e que não termina nunca. Outro dia mesmo eu estava me desculpando com uma grande amiga (sem filhos) por não conseguir ser tão assídua nos encontros da nossa turma: “Nessa segunda vou sair mais cedo do trabalho para levar as crianças no dentista, amanhã também tô enrolada porque é aniversário do Gael semana que vem, e eu prometi que ia fazer um bolo de animais da Africa, então tenho que tentar achar os bichinhos para colocar em cima e na quarta a Maria convidou os amiguinhos para lancharem lá em casa depois da escola.”

 

Ilustração Carolina Furtado

Ilustração Carolina Furtado

Podemos tentar explicar o trabalho invisível com momentos dramáticos do cotidiano. Como por exemplo, naquele dia que seu filho de 5 anos acordou à noite com pesadelo, por algum mistério inexplicável, homem nunca escuta essas coisas. Você levantou, pegou ele no colo, levou água, abraçou. Uma hora depois ele voltou a dormir. No dia seguinte, você estava meio sonâmbula naquela reunião importante que você tinha no trabalho. Mas quem importa? Seu super cérebro de mãe e mulher maravilha consegue trabalhar direitinho mesmo sem ter dormido. (Só que não…)

Podemos tentar exemplos mais corriqueiros: desembaraçar o cabelinho, preparar lancheira (saudável, hein?), arrumar armário, separar roupas que não cabem mais, medir os pezinhos para ver se o sapato ainda cabe, comprar o presente de aniversário pro amiguinho, responder com entusiasmo perguntas sobre o planeta Saturno ao mesmo tempo que você empurra o carrinho de supermercado e pensa que hoje não pode ser macarrão de novo porque ontem já foi macarrão.

Enfim… exemplo é o que não falta. Mas como são tantas coisinhas, o trabalho invisível tem um problema de marketing, porque não é assim “o” grande sacrifício que você fez. São mini tarefas, mini sacrifícios, mini renúncias, mas que no final fazem toda a diferença para o futuro de uma criança.

O outro problema de marketing do trabalho invisível é que ele não é remunerado. Na conta do amor, ele vale milhões. Mas na conta bancária ele não vale nada. Parou de trabalhar para cuidar das crianças? Desacelerou para poder ter mais tempo? Ou simplesmente está aí andando como um zumbi humano fazendo dupla jornada (casa e trabalho)? Sinto informar que na hora de fechar a conta do casamento, você não necessariamente consegue condicionar valor palpável ao trabalho invisível.

Corro o risco de ficar repetitiva, mas preciso citar outro exemplo porque é sensacional. Tenho um amigo separado que tem uma filha de 8 anos e é um paizão. Ele foi viajar de férias sozinho com a filha por duas semanas. “Foi ótimo - ele me contou -  a gente se divertiu horrores, mas nossa, no final eu estava esgotado, a Julia quer sempre conversar, pergunta coisas o tempo inteiro… é bem cansativo, confesso que eu até gostei de deixar ela na casa da mãe de novo”. A primeira coisa que eu pensei foi … bem vindo ao mundo do trabalho invisível da sua ex-mulher, que trabalha fora, e ainda conversa com a filha todos os santos dias depois do expediente, estando ou não cansada.

No fundo esse mundo é machista para caramba. Mas isso é outra história. 

E aí? O quê a gente faz? Bom, se você quer criar seus filhos, não tem como escapar do trabalho invisível. Escapar dele é escapar da experiência de criar um ser humano. Além disso é bonito isso, é amor.  A gente cresce pra caramba.

Mas não faça esse trabalho esperando reconhecimento de quem nunca esteve nesta posição - por anos! Talvez um dia seus filhos, já mais velhos, quando eles tiverem seus próprios filhos, consigam entender. Mas nem isso é garantido. Faça porque alguém tem que assumir o trabalho mais importante do mundo e leve esse orgulho na alma como sua grande recompensa, seu grande feito na vida. 

Ilustração Carolina Furtado

Ilustração Carolina Furtado

Agora, o ideal mesmo seria se a gente pudesse dividir direitinho o trabalho invisível com os pais dos nossos filhos. Porque mesmo que eles sejam os caras mais bacanas do mundo, o trabalho invisível só é invisível porque ele está todinho na nossa conta. 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria de 8 anos e do Gael de 6 anos. As ilustrações deste texto foram feitas pela sua irmã, a artista plástica Carolina Furtado. Clique aqui para conhecer mais do trabalho lindo dela. 

Me digas o que tu lês, e te direi quem és (dicas de livros)

Me digas o que tu lês, e te direi quem és (dicas de livros)

40 perguntas para fazer em vez de perguntar "Como foi na escola hoje?"

40 perguntas para fazer em vez de perguntar "Como foi na escola hoje?"