O que fazer (e não fazer) quando uma criança é ansiosa

O que fazer (e não fazer) quando uma criança é ansiosa

Algumas pesquisas revelam que crianças que nascem prematuras têm grandes chances de serem pessoas ansiosas. Eu ouvi isso de uma expert aqui nos Estados Unidos, a pediatra especialista em neurodesenvolvimento, Mary Leppert, que trabalha no Kennedy Krieger Institute, em Baltimore, ligado ao Hospital John Hopkins, um dos melhores do mundo. 

Minha filha Alice nasceu prematura e aos 6 anos é uma menininha ansiosa. Por isso ao me deparar com as dicas do psiquiatra Clark Goldstein,  especializado em tratamento de ansiedade, achei que elas servem pra mim e podem servir para outras famílias também. 

Quando as crianças estão cronicamente ansiosas, até mesmo os pais mais bem intencionados podem cair num ciclo negativo e aumentar a ansiedade delas. Isso acontece quando os pais, antecipando os temores da criança, tentam protegê-la desses medos. Aqui vão as dicas:

1. O objetivo não é eliminar a ansiedade, mas ajudar a criança a controlá-la.

Nenhum de nós quer ver uma criança infeliz, mas a melhor maneira de ajudar as crianças não é querer superar a ansiedade tentando remover o estresse que a provocam. É preciso ajudá-las a aprender a tolerar essa ansiedade. E como consequência disso, a ansiedade pode diminuir ou desaparecer ao longo do tempo.

2. Não evite fazer coisas simplesmente porque a criança está ansiosa.

Ajudar as crianças a evitarem as coisas que elas têm medo, vai fazê-las se sentirem melhor num curto prazo, mas reforça a ansiedade a longo prazo. Se uma criança em uma situação desconfortável fica chateada, começa a chorar e os pais decidem retirá-la de um determinado lugar ou remover a coisa que ela tem medo: ela aprende que é assim que as coisas funcionam. E este ciclo acaba se repetindo.

3. Expresse expectativas positivas, mas realistas.

Você não pode prometer a uma criança que seus medos são irreais, que ela não vai falhar num teste, que ela vai se divertir em algo que a aflige ou que outra criança não vai rir dela durante sua apresentação na escola. Mas você pode plantar nela a confiança de que ela vai ficar bem, de que ela será capaz de se controlar e, então, enfrentando seus medos, o nível de ansiedade vai cair ao longo do tempo. Assim ela terá a segurança de que as expectativas dela são realistas e que você não vai pedir pra ela fazer nada que ela não consiga suportar. 

4. Respeite os sentimentos da criança, mas não os empodere.

É importante compreender que validar algo nem sempre significa concordar com esse algo. Então, se uma criança está com medo de ir ao médico, porque tem medo da vacina, você não vai menosprezar isso, mas você também não vai aumentar esse sentimento. Você vai precisar ouvir, ser compreensiva, ajudá-la a entender sobre o motivo da ansiedade e incentivar que ela enfrente os medos. A sua mensagem tem que ser: "Eu sei que você está com medo, e isso é bom, e eu estou aqui, e eu vou ajudá-la a passar por isso."

5. Não faça perguntas cruciais.

Incentive seu filho a falar sobre seus sentimentos, mas não tente perguntar o “X” da questão. Evite perguntas do tipo: Você está ansiosa por causa da sua prova? Você está preocupada com a feira de ciências? Para evitar alimentar o ciclo de ansiedade é melhor optar por perguntas mais amplas: Como você está se sentindo sobre a feira de ciências?

6. Não reforçe os medos da criança.

Digamos que uma criança teve uma experiência negativa com um cão. Numa próxima vez que ela está perto de um cão, você como mãe pode estar ansiosa sobre como ela irá se comportar. Aí, involuntariamente, querendo protegê-la, você acaba soltando uma frase do tipo: “Talvez seja melhor você tomar cuidado. É melhor ficar com medo dele para se proteger”. Esse tipo de reforço do medo precisa ser evitado.

7. Encoraje a criança a tolerar sua ansiedade.

Deixe o seu filho saber que você aprecia o trabalho dele em tentar tolerar a ansiedade, a fim de fazer o que ele quer ou precisa fazer. É realmente fazê-lo ter uma vida ativa e deixar a ansiedade tomar naturalmente um outro rumo. Esse rumo é chamado de"curva de adaptação" - vai caindo ao longo do tempo a medida que a criança continua a ter contato com a ansiedade. Não chega a cair a zero, nem tão rapidamente como a gente gostaria, mas é preciso entender que os medos devem ser encarados.

8. Encurte o período que antecede uma preocupação.

Quando estamos com medo de alguma coisa, o momento mais difícil é aquele antes daquilo acontecer. Assim, uma outra regra de ouro para os pais é realmente tentar eliminar ou reduzir o período de antecipação. Se uma criança está nervosa sobre ir a uma consulta médica, você não vai começar uma discussão sobre isto duas horas antes de ir. Assim a tensão só vai aumentar. Então, basta tentar encurtar esse período.

9. Pense em estratégias por meio dos sinais que a criança nos dá.

Às vezes ajuda falar a respeito de um medo que possa vir a existir de fato. Uma criança que está ansiosa sobre a separação de seus pais pode se preocupar se um deles esquecê-la na escola. Então vamos falar sobre isso. Se sua mãe não chegar no final da aula, o que você faria? Bem, eu diria para a professora que minha mãe não está aqui. E o que você acha que a professora faria? Bem, ela iria ligar para minha mãe ou pedir para eu esperar mais um pouco. Uma criança que tem medo que um estranho vá buscá-la na escola pode ter uma “senha secreta” com os seus pais, que só eles saberiam. Para algumas crianças, ter um plano pode reduzir a incerteza de forma saudável e eficaz.

10. Tente ser um modelo saudável para os filhos contra a ansiedade.

As crianças podem aprender de várias maneiras conosco, desde que a gente também demonstre a elas que estamos tentando lidar com as nossas próprias ansiedades e com os nossos medos. As crianças são perceptivas e adoram nos copiar. É claro que elas vão prestar atenção se você ao telefone disser a uma amiga que não está dando conta de se controlar por algum motivo. Não é o caso de fingir que você não passa por nenhum estresse. Mas tentar deixar as crianças ouvirem e identificarem em você coisas positivas, exemplos de que você também está tentando gerenciar o seu nervoso.

Fabiana Santos é jornalista, casada,  mãe de Felipe, de 12 anos, e de Alice, de 6 anos. Eles moram em Washington-DC. Pra ela,  algo super importante é tentar controlar a própria ansiedade para dar exemplo à filha. Ela segue firme tentando.

As dicas do Dr. Clark Goldstein podem ser lidas em inglês nesse site aqui.

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