Seu filho é outra criança quando você não está por perto

Seu filho é outra criança quando você não está por perto

Quem aí nunca ouviu essa frase: “Seu filho é outra criança quando você não está por perto”? Não sei vocês, mas eu garrava um ódio toda vez que ouvia isso. E por que ela é tão irritante? Porque é uma verdade irrefutável. Como negar, diante de tantas e barulhentas evidências? Na creche ele é um anjo, não chora nunca e fica muito bem com todo mundo. Com você ele está sempre com o nariz escorrendo, de tanto pranto. Pronuncia “babãe” com dor na alma, é uma criança com uma vida muito “sufrida”. Com a vovó ele obedece, come tudo, brinca e sorri. Mas basta a mãe botar as fuças na sala para começar o festival de manhas e birras. E isso vira um O Médico e o Monstro diário. Uma máquina de minar a autoestima de qualquer mãe.

Aqui em casa são incontáveis os exemplos de cenas de teatro, dignas de prêmio. A mais velha chorava das veias quase explodirem e o rosto ganhar um tom de vinho cabernet sauvignon, todos os dias quando eu saía para trabalhar. Todos. Os. Dias. Eu tinha vontade de ir direto num tatuador, carimbar CULPADA em caixa alta na testa. Mas, segundo quem ficava com ela, bastava eu fechar a porta para ela limpar o rosto, abrir um sorriso e perguntar, num tom alegre e faceiro: “vamos brincar de que hoje”? Não é possível. Vocês só estão me dizendo isso pra eu me sentir melhor. Tive que ver um filminho, pra acreditar. Eu não tinha nem terminado de descer as escadas do prédio. Cara de pau. Por quê, senhor? Por que eles fazem isso com a gente?

Porque são inteligentes. Crianças vêm equipadas com os mais modernos dispositivos de chantagem e manipulação. E usam isso sem o menor pudor, para conseguirem o que querem. E mães vêm equipadas com a culpa, mesmo fazendo tudo direitinho. A criança saca que é nesse lugarzinho que ela pode se fazer. E se faz. É assim em quase todas as casas. É assim com quase todas as crianças. Sabe por quê? Porque se tem uma pessoa nesse mundo com quem eles sabem que podem fazer drama mexicano, é com você, minha querida. Se tem alguém que vai sofrer com o seu teatro, chorar e bater palminhas de pé no final do show, é tu. Mãe ama uma Maria do Bairro, né não?

Aí a gente conclui, né, que o problema não está em quem ouve a frase, mas em quem diz. Especialmente quando vemos um certo risinho meio acusatório. “Quando você não está, ele não faz nada disso.” Saber disso me ajuda em que, cara pálida? Aí você fica com raiva da sua mãe, da sogra, da babá, seja quem for, que te diz isso. 

Agora, vamos ser honestas? Cá entre nós, não tem mais ninguém ouvindo. Mesmo sem querer, será que a gente não alimenta esse circo? Na maioria das vezes, de forma inconsciente, eu acho. Não se ligou ainda? Pensa bem. Quem aí não gosta de ser tão amada? Necessária? Absoluta? Quem nunca sonhou com um amor assim? Alguém todos os dias se descabelando, quando partimos? Alguém que se agarra na porta da creche na nossa perna, porque não aguenta ficar míseras quatro horinhas sem a nossa presença? Hein?

Tudo normal, tudo certo, você não está sozinha nessa, amiga-mãe-caminhoneira. Faz parte do show. Do deles e do nosso. E do de quem fica com o bebê também, querendo mostrar que está fazendo um ótimo “sirviço”, te substituindo. Com o tempo, e alguma esperteza, a gente vai se treinando para não ceder. Tentar não ceder. Ok, vamos ser honestas, se você conseguir não ceder uma vez, é lucro. Com o tempo, também, você deixa de precisar se sentir tão necessária e absoluta o tempo todo. E fica feliz de ver seus pequenos remelentos ganhando cada vez mais independência, conquistando o mundo. Não precisando tanto de você. Fica triste, não! Seu lugar estará guardado pro resto da vida, ninguém vai te tirar isso. Seu filho será, para sempre, outro quando você não está. Se tudo der certo, um outro ainda melhor.

Claudia Gomes é escritora, roteirista de TV e cinema, mãe da Pilar, de 12 anos, e do Vicente, de 6 anos. Eles moram no Rio de Janeiro. Ela ja sobreviveu a toda espécie de chantagem de filho e de bullying de avó. Para ver mais textos dela, visite a página da Claudia no Facebook.

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