Desculpe, eu não queria que fosse assim... mas você está me irritando

Desculpe, eu não queria que fosse assim... mas você está me irritando

Eu estava em um trem indo de Colônia para Berlim. Os vagões dos trens tipo ICE (International City Express) são divididos em “vagões de silêncio”, vagões normais e alguns trens têm até vagão família (também conhecido como “vagão vale tudo”). Quando viajo com as crianças sempre pego o vagão família que assim não preciso me preocupar se as crianças estão falando muito alto, se estão incomodando alguém com as brincadeiras e etc. Sentou no vagão família, meu amigo, é salve-se quem puder.

Quando estou viajando sozinha, contudo, reservo o assento no vagão do silêncio, porque para mim essas 4 horas de trem entre Colônia e Berlin são de ouro: já me renderam textos, sonecas gostosas, livros lidos e tudo mais que só dá para fazer na santa paz do senhor. Isso é claro, se as pessoas do vagão do silêncio respeitam o silêncio.

Naquele dia o trem estava vazio, perfeito. Guardei minha mala, me aconcheguei na janela, fechei os olhos e já estava pronta para tentar dar uma cochilada… quando uma menina de uns 20 anos, sentada na fileira ao lado começou a falar no telefone. Como havia muito pouca gente no vagão, a conversa dela era ouvida por todos e era o único ruído do vagão às 7 da manhã.

Escutar conversa dos outros no telefone é pior do que escutar uma conversa entre duas pessoas ao vivo e a cores. O problema com a conversa no telefone é que quando a pessoa faz pausa para escutar o que o interlocutor do outro lado está falando, você fica mentalmente esperando a hora da pessoa voltar a falar e, na pior das hipóteses, fica até preenchendo as lacunas da conversa. “Ah… não, mas me conta, foi boa a festa?”. E la´está você, imaginando a festa, as pessoas da festa, se você teria gostado da festa e tudo mais que a pausa na conversa permitir.

Primeiro eu tentei dormir. Admito que ela não estava falando alto. Não consegui. Depois eu esperei a conversa terminar. Não tinha cara de que ia terminar antes de ela chegar em Hannover. Era o tipo de conversar sem importância nenhuma. Para dar uma ideia, ela ficou uns 15 minutos debatendo com a amiga (acho que era uma amiga), se chegando em Hannover, ela conseguiria em 28 minutos, tirar dinheiro no caixa automático antes de pegar sua conexão de trem. Depois eu tentei fazer sinais de indignação. Um casal de idosos atrás de mim também estava incomodado, e eu me juntei ao coro de gente bufando e tentando mostrar repulsa ao comportamento indevido. Não adiantou. Ela nem percebia. 

Aí depois de uma meia hora escutando aquele nhém nhém, eu entrei num outro estágio mental, que era decidir se eu iria ou não falar com a menina. Os velhinhos atrás de mim tinham desencanado da situação e focaram no Soduko. Sabe como são os velhinhos evoluídos, né? A proximidade do fim da vida dá uma perspectivas das coisas, na qual todo o besteirol humano não faz mais sentido. Enfim... se alguém ia ter que parar aquela afronta às normas de bons costumes dos trens alemães, seria eu. Depois de até consultar um amigo alemão por Whatsapp, em algum momento eu decidi me calar.

Pensei que ela não estava fazendo de propósito, que a gente tem de aprender a ser mais tolerante com o próximo, e que eu, como uma praticante assídua de meditação, com fortes aspirações a me tornar um ser humano iluminado, tinha que treinar minha cabeça para ser menos influenciada por fatores externos. Tentei fazer como os budistas ensinam: controle da mente, equilíbrio interno, independente do que está acontecendo lá fora.

A menina continuou feliz falando no telefone, agora a discussão era sobre as mechas verdes que ela tinha acabado de fazer no cabelo, e sempre ligando de novo quando perdia a conexão. E eu lá: mecha verde, conexão em Hannover, previsão do tempo… Até que de repente num ímpeto de impulsividade, levantei do meu assento, me coloquei na frente dela, fiz sinal com a mão para ela me ver, e quando finalmente ganhei sua atenção, eu disse: “Aqui é área de silêncio, eu já esperei demais sua conversa terminar.” 

Ela disse ok e desligou o telefone.

Eu juro que eu não sou implicante. Pelo contrário, acho que um dos meus desvios de personalidade é aguentar demais situações que me fazem sofrer. E foi por essa razão que eu me senti tão bem depois de ter falado com ela. Num primeiro momento, senti até um certo orgulho de mim. Meu ato me pareceu um sinal de maturidade, de luta pelo meus direitos. Acho que há uns anos atrás, eu teria simplesmente sofrido calada, aguentando 2 horas daquela conversinha chata do caramba.

Buda, contudo, provavelmente não deve achar que meu rompante de raiva seja motivo de orgulho. Buda é da opinião de que não era a menina que estava me irritando e sim eu que estava me deixando irritar pela menina. 

Professores de meditação explicam que sentir raiva faz parte da condição humana.  Porém sentir raiva, respirar fundo, conter a impulsividade e manejar o momento com a elegância de que só quem tem paz de espírito possui, isso sim é coisa de gente a caminho da iluminação.

Bom, a elegância fica para uma próxima.

Camila Furtado mora na Alemanha e há 4 anos está tentando evoluir através da meditação. Ela percebe nitidamente a diferença de “elegância” no seu comportamento nas fases em que está meditando mais e menos. O episódio no trem, em que sua vontade real era dar uns tabefes na menina sentando ao lado, era uma fase menos. 

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