Todo médico deveria pensar com o coração

Todo médico deveria pensar com o coração

Com certeza você, como eu, já passou por aquela situação, seja com um simples resfriado de filho ou algo mais grave, que o jeito de um médico te atender, ou mesmo falar sobre o assunto, fez a maior, para não dizer toda, diferença. 

O que quero explicar é que eu acho que qualquer médico, e ainda qualquer outro profissional da área da saúde, precisa pensar com o coração. Pra muito além das avaliações, dos diagnósticos e das prescrições, esse grupo especial de pessoas, que lida com vida, morte, saúde, doença, precisa saber colocar em prática: compaixão, sonoridade, tolerância e porque não dizer carinho e amor. Me parece tão razoável que diante de um problema de saúde, um atendimento incluindo uma postura de “vem cá que eu te entendo e quero te ajudar” faz a maior diferença. 

Vai dizer que você, enquanto mãe, nunca teve vontade de apertar o pescoço de uma enfermeira que não estava nem aí enquanto seu filho urrava ao ter que tirar sangue? Ou não quis sair correndo daquele consultório enquanto você inexperiente estava super angustiada e o médico te olhava com aquela cara blazê, te achando exagerada, enquanto examinava seu filho? Sim, uma das coisas que mais fere o coração de uma mãe é o menosprezo das pessoas com a nossa preocupação.

Estou falando tudo isso porque eu constatei o que atitudes amorosas podem fazer nos momentos de apreensão materna diante de um filho doente. E aqui eu vou aproveitar o blog pra render minha homenagem a dois profissionais de saúde que entraram na minha vida como dois anjos, desses que eu gostaria que existissem em todos os consultórios e hospitais do mundo para todas as crianças.

Já contei aqui que minha filha Alice, de 6 anos, precisou ficar internada. Ela passou por uma cirurgia delicada, que a gente não esperava. E foi então que o Dr Robert Keating, uma hora e meia antes da cirurgia, sentou comigo e me explicou tudo que ele iria fazer. Ok, explicações de praxe que qualquer médico deveria dar. Mas o diferencial veio no final. Diante da minha cara mega preocupada ele disse: “Mãe, a partir de agora você não vai mais se preocupar. Alice agora é minha filha. Eu vou operá-la como minha filha. Quem vai cuidar dela agora sou eu.” Não teve preço estas frases. Elas me acalmaram de uma maneira sobrenatural. Eu sabia que a minha filha estava nas mãos de um excelente médico. Mas depois daquela conversa eu tive certeza de que poderia aguardar o resultado da cirurgia em paz e confiante. 

O outro exemplo que eu queria dar aconteceu enquanto a Alice se recuperava. Eram várias enfermeiras que revezavam os turnos, claro. Mas uma em especial, Sara Keefer, conquistou minha filha de uma maneira tão doce e quando as coisas estavam sob os cuidados dela eu bem que relaxava. Alice a adorava e as duas faziam graça uma com a outra o tempo todo. 

Num dia em que a Sara estava de folga, Alice perguntou por ela. Eu disse que naquele dia ela não estaria no hospital. E Alice disse: “Eu sei disso mas ela vem sim, mamãe. A gente fez um trato. Ela disse que se eu te obedecesse, ela ia voltar hoje só pra me dar um oi”. Meu coração gelou achando que Sara tinha falado aquilo da boca pra fora e já prevendo a decepção da Alice que leva (como qualquer criança) muito a sério qualquer combinado. Mas a Sara passou para vê-la mesmo sendo seu dia de folga. Foi uma conversa longa, só entre elas. E eu observando de longe as gargalhadas das duas. Depois da visita, eu tive que ouvir: “Eu não te disse, mamãe”.

Alice ja está bem e em casa. Antes de deixar o hospital foi longo o abraço que ela deu na Sara e ainda soprou no ouvido dela: “Eu vou sentir sua falta”. Quanta diferença tratar uma criança com amor pode fazer.

Fabiana Santos é jornalista, e além da Alice, de 6 anos, é também mãe de Felipe, de 12 anos. Eles moram em Washington-DC. O hospital citado aqui é o Children's National Hospital. Um lugar realmente especial no cuidado com crianças.  

 

A amiga do meu pai

A amiga do meu pai

Porque ver as coisas com perspectiva pode nos ajudar a ser mais feliz

Porque ver as coisas com perspectiva pode nos ajudar a ser mais feliz