A amiga do meu pai

A amiga do meu pai

Fugiu com a galinha da vizinhaaaa. Brincadeira. É que depois que escrevi o título, a música veio na minha cabeça e... foi mais forte que eu. Me perdoem. Como muitas de vocês já sabem, sou separada. Duas vezes. Com um dos meus exs tenho uma relação civilizada. Hoje em dia. Nem sempre foi assim. Com o segundo tenho muito mais que isso. Tenho uma relação de amizade, parceria e amor. Sim, migas, amor. O relacionamento acaba, mas quem disse que o afeto precisa morrer também? Ele pode mudar de lugar, forma e tamanho. Não é fácil. Mas é perfeitamente possível.

Vocês são adultos, vão sofrer por um tempo depois da separação, mas, se tudo der certo, logo vão estar se relacionando com outras pessoas. Vamos dizer que você já não o ame mais como homem e não tenha mais nenhum (ou quase nenhum) ciúme dele com a nova namorada. Ponto para você, mulher evoluída e moderna do século 21. Agora, o que ninguém te ensinou foi a lidar com o ciúme que você vai sentir dos seus filhos com ela. É provável que esse, amiga-mãe-caminhoneira, faça com que você jogue toda a sua evolução no lixo. Te transforme de Jackeline Onassis em Tati Quebra Barraco em dois segundos. Foi mais forte que eu.

A primeira vez que o ex veio buscar a filha pra passar o fim de semana, acompanhado da galinha da vizinha (mentira, ela não era vizinha) me envergonhará para o resto dos meus dias. Ao ver aquela figura cheirosa e banhada no carro, fresquinha, porque não tinha filhos, eu – que na época ainda amamentava, fedia a leite azedo, e mal tinha tempo para pentear os cabelos – recebi um exu-tranca-rua e bati a porta de casa na cara dele. Não vai levar. Com essa (complete com todos os xingamentos femininos depreciativos que você conhece) a tiracolo, você não leva a minha filhaaaaaa. Foi horrível. Um vexame. Em minha defesa: ele tinha me trocado por ela, quando minha bebê tinha apenas cinco meses. Haja evolução espiritual.

Passei muito fim de semana me torturando, pensando naquelazinha andando de mão dada com minha filha na rua. Comprando presentes. Dormindo juntinho, abraçadas na mesma cama. Arghhhh. Como era difícil. O tempo passou, casei de novo, a filhota cresceu. Mas levou ainda muito tempo para eu não receber o exu, a cada vez que ela chegava em casa contando as maravilhas da tia fulana. Uma nova a cada 3, 4 meses. Seis, no máximo. Sempre que eu perguntava quem era a tia fulana, ouvia uma resposta parecida: a amiga do meu pai. Já procurei dia e noite. Já procurei noite e dia... Parei, juro. Os anos passaram mais um pouco, tive outro filho, acabei separando de novo. Mais um tempinho e... o filho chega em casa contando novas aventuras de outras amigas do papai. Jesus, parecia que eu tinha usado o Santo Sudário como abadá de micareta.

Umas conheci pessoalmente – sem chilique –, outras não. Algumas eram até legaizinhas, outras mais enjoadas. E, claro, diante de tanta variedade, já cruzei com uma madrasta de Branca de Neve também. Fiquei aliviada quando o pai da mais velha sossegou por mais de seis meses com uma, com quem está casado até hoje. Embora, confesso, tenha sido muito difícil lidar com o fato de ela ser uma americana loira, linda, com duas bilhas azuis no lugar dos olhos, e conseguir plantar aquela bananeira de yoga em cima de uma prancha de stand up paddle em pleno balanço do mar. E ser vegetariana. E ser uma produtora executiva de cinema e TV em Los Angeles. E da minha filha achar ela o máximo. É, talvez eu tenha usado o abadá.

Fato é que, com este tratamento de choque intensivo, fui obrigada a rever os meus conceitos. E hoje sou adepta do ditado “bota mel na boca dos meus filhos e estará adoçando a minha”. Amor nunca é demais. Quanto mais gente der carinho pra eles, melhor. Não me importa se é babá, madrasta, peguete, a tia da cantina ou o namorado do papai. Só não pode ser a Sharon Stone yogue. Brincadeira. Pode sim. Elas se amam, o mundo pode ser um lugar lindo. Eu que trabalhe pra mandar o meu ciúme lá pra onde fugiu a galinha da vizinha. Onde, mesmo procurando dia e noite, eu não o encontre nunca mais. Até porque, com o tempo, entendi que o amor pode vir de muitos lugares. Mas mãe, só tem uma. Vrááááá. (Tá, talvez eu ainda não seja tão evoluída assim)

Claudia Gomes é roteirista de TV e cinema, mãe da Pilar, de 11 anos, e do Vicente, de 6 anos. Os dois têm duas madrastas incríveis.

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