Porque ver as coisas com perspectiva pode nos ajudar a ser mais feliz

Porque ver as coisas com perspectiva pode nos ajudar a ser mais feliz

Enquanto eu escrevo esse texto a filha mais nova da Fabiana, Alice, de 6 anos está sendo operada, não vou entrar em detalhes mas é uma coisa bem delicada.

A última vez que eu tinha falado com a Fabiana havia sido há dois dias. A Alice estava com um pouco de febre, mas ninguém desconfiava que podia ser algo grave e então esse nem foi nosso assunto principal, estávamos discutindo detalhes de uma proposta que recebemos para o blog.

Ultimamente quando eu e a Fabiana não falamos sobre o blog, a gente dá uma reclamada da vida. Não é que nossa vida é uma merda não, nós sabemos que não é. Mas nós duas estamos passando por vários desafios pessoais e profissionais e como fazem as amigas, a gente desabafa uma com a outra.

Hoje enquanto nos falávamos eu pensava em todos os temas não importantes, em todas as reclamações exageradas e problemas pequenos que foram pautas das nossas conversas nas últimas semanas e que, agora, não tem relevância nenhuma diante da saúde da Alice.

O mas irônico de tudo é que hoje quando eu acordei, eu olhei para minha casa e me senti a pior das mortais. Afinal, é sábado, está fazendo Sol na Alemanha- praticamente um milagre - mas eu, coitada, tinha que, depois de trabalhar a semana inteirinha, arrumar a casa em vez de colocar os meus pés para o ar.

Depois de saber da operação da Alice eu fiquei tão nervosa, me sentindo tão impotente diante do sofrimento da minha amiga que sem saber o que fazer, fui arrumar a casa porque me pareceu uma forma boa de ocupar minha cabeça enquanto eu esperava a operação terminar.

Enquanto eu arrumava a casa e levantava os brinquedos dos meus filhos do chão, as roupinhas, o balde de terra que o Gael derrubou na varanda,  a escova da Maria que ela insiste em largar no sofá, eu era inundada por um enorme sentimento de gratidão. Eu escutava a conversinha deles na cozinha, as risadinhas, as provocações que eles fazem um com o outro e me sentia grata. Por eles existirem, por até aqui tudo ter dado certo.

Não é a primeira vez que esse sentimento me invade. Eu penso muito sobre isso. Sobre ter perspectiva na hora de encarar dificuldades, principalmente as pequenas dificuldades. Outro dia cheguei do trabalho super cansada, e depois de dar janta, banho e etc etc com as crianças, me arrastei para o computador para fazer alguns ajustes no blog para que o cara que está mexendo no layout pudesse continuar trabalhando. Me sentindo a mais sobrecarregada das mulheres, abri a plataforma do blog e de repente fiz uma besteira lá e apaguei o blog inteiro. Deletei todos os posts. Foram 30 minutos de pânico até que eu conseguisse acessar um developer para me ajudar a fazer o back-up. Nos momentos em que eu esperava para saber se o back-up ia mesmo conseguir recuperar tudo, eu me sentia uma ridícula por ter reclamando para mim mesma de ter que sentar ali uma horinha mais e resolver os probleminhas desse blog, que eu amo. 

Quando eu finalmente consegui colocar o blog on line de novo, e conferi que estava tudo lá, eu pensei em como eu era grata de ter esse blog, e pensei em todas as pessoas e chances que esse trabalho extra na minha vida (sim, gente - dá trabalho!) me apresentou nos últimos 4 anos, e me senti outra vez meio ridícula por ter tido preguiça. 

Não estou fazendo uma apologia àquela ideia baixo astral de que “tudo pode piorar”, mas eu acho que principalmente no que diz respeito à saúde, a gente devia viver mais atento com a sorte que a gente tem. 

Outro dia li a frase mais linda da médica Ana Claudia Quintana Arantes, especializada em cuidados paliativos. A frase era mais ou menos assim: “A gente só percebe a liberdade que a saúde nos dá, quando a gente não tem mais saúde”. Essa frase me marcou muito e tenho tentando lembrar dela quando alguma coisa não está saindo do jeito que eu gostaria. Eu tenho saúde, meus filhos têm saúde, até meus pais têm saúde. Eu me sinto cansada muitas vezes mas com saúde física e força mental, a gente pode qualquer coisa nesta vida. Por que a gente sempre esquece disso? Por que é tão difícil reconhecer tudo que a vida, do jeitinho que ela é agora, já está oferecendo para nós?

Gratidão não é um hashtag da moda. Gratidão, de verdade, como a que eu senti hoje enquanto arrumava minha casa e escutava meus filhos saudáveis brincarem, essa gratidão é poder. 

Vamos tentar mantê-la no coração. 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria e do Gael. Fabiana Santos mora nos Estados Unidos e é mãe da Felipe e da Alice. Hoje 16 dias depois deste texto, a Alice está em  casa e se recuperando super bem. Obrigada, vida. 

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