Brasil: Você é responsável por criar crianças mais éticas do que a sociedade em que elas estão vivendo

Brasil: Você é responsável por criar crianças mais éticas do que a sociedade em que elas estão vivendo

Faz duas semanas tive uma discussão com meu pai e minha irmã sobre um texto que rascunhei para o blog mas acabei desistindo de publicar. O texto era sobre os políticos corruptos do Brasil e a educação que eles receberam em casa. Eu imaginava que se os pais e mães dos corruptos fossem pessoas de bem, eles deviam estar sentados em um poltroninha assistindo televisão e sentindo vergonha dos seus filhos. 

Vocês sabem, mesmo não sendo, as mães sempre se acham culpadas pela vida torta dos filhos. E se eu fosse mãe de um desses políticos, eu iria provavelmente me perguntar onde foi que eu errei para que meu filho, que um dia foi uma criança tão inocente como essas que nascem sem futuro nas favelas e periferias do Brasil, se tornasse um monstro egoísta alheio ao sofrimento dos outros. 

No texto eu contava sobre um episódio que aconteceu com meu pai e que me marcou muito. Quando eu era adolescente, meu pai dirigia uma companhia de seguros. Um dia um segurado que deixou de renovar a apólice de seguros da sua fábrica o procurou desesperado porque um incêndio havia destruído tudo, prédio, máquinas, matéria prima e produtos acabados. Ele ofereceu uma grana alta para o meu pai aceitar uma proposta com data retroativa, de forma que todos os prejuízos passariam a contar com a cobertura do seguro.

Lembro ate hoje das palavras do meu pai: “Se eu tivesse aceitado hoje estaríamos ricos, mas nada paga deitar a cabeça no travesseiro com a consciência limpa.”

No meu texto eu contava como este e outros exemplos permearam minha infância e influenciaram o tipo de gente que eu me tornei: “honesta”. Quando eu contei do texto para o meu pai, ele me disse que ficava feliz de saber que ele havia sido um bom exemplo. Porém, mais uma vez me ensinando alguma coisa, argumentou que não queria que eu o pintasse no texto como se ele fosse um santo imaculado, afinal ele não é um corrupto filho da puta, mas ele tampouco podia atestar que havia sido 100% irrepreensível por toda sua vida. 

Eu discordei veemente do meu pai e aleguei que “dar um jeitinho aqui e acolá” é uma coisa enquanto desviar bilhões de uma obra pública era algo de outro nível. Foi quando minha irmã mais nova entrou na nossa conversa no WhatsApp e disse que nossa métrica para honestidade não podia ser tão subjetiva pois usando critérios assim cada um estabelece para si mesmo o que pode e não pode. 

E terminou argumentando que TALVEZ agindo de acordo com a nossa “ética de jeitinhos”, que está tão enraizada na nossa cultura e jogando um jogo político que parece ter regras que vão bem além da constituição, se nós fossemos políticos no Brasil TALVEZ nós também iríamos embolsar nossa graninha. 

Fiquei indignada de ser colocada na mesma laia dos ilustres líderes do nosso país, mas me senti obrigada a fazer uma análise de consciência. Foi então que me lembrei daquela carteirinha falsificada da UNE, que garantia ingresso com desconto, daquele guardinha rodoviário dizendo que sim, dava para aliviar aquela multa na Rio-Santos e da minha coleção de CDs piratas nos anos 90. Resolvi enfiar minha viola no saco e não publicar o texto sobre como eu me tornei esta pessoa "incorruptível" que eu sou hoje. 

Sinceramente não sei. Acho que tenho empatia demais pelos outros para desviar dinheiro de um hospital público e ir comer lagosta e caviar, sabendo tem gente morrendo pelo Brasil inteiro por não ter acesso a um sistema de saúde decente. Mas tenho que concordar que minha irmã tem um ponto bem interessante a ser considerado: nossa cultura facilita o surgimento da sem vergonhice.

Eu sei que dá nojo ver o que está acontecendo no Brasil. E a gente quer muito acreditar que isso é culpa deles, os filhos da putas. Mas qual é a nossa parcela de culpa no show do horrores? 

Outro dia eu estava na reunião de pais da escola da minha filha aqui na Alemanha e um policial do bairro veio falar comigo. Ele queria pedir aos pais que não parassem o carro na frente da escola porque naquela área - como todos sabem porque é sinalizada - é proibido parar e estacionar. E que havia uma razão para isso. A razão era garantir a segurança das crianças pequenas que vão sozinhas à pé para escola afastando os carros do portão da escola. Depois de explicar a razão da proibição, ele disse que ainda havia o agravante de que se os pais parassem o carro no lugar proibido, nem que fosse rapidinho, nem que não estivesse ninguém olhando, eles estavam na verdade ensinando aos filhos que um comportamento errado funciona e isso era terrível para a sociedade.

Bom… talvez tenha chegado a hora da gente começar a pensar que para que nossos filhos vivam no futuro em um país menos corrupto, nos vamos ter que ensiná-los a serem mais certinhos, éticos e incorruptíveis do que nós mesmos e a sociedade em que eles estão inseridos. 

Novos tempos.

Camila Furtado mora na Alemanha há 12 anos, tem dois filhos brasileiros-alemães que ainda não entendem muito bem o que é jeitinho, mas que estão aprendendo a amar o Brasil tanto quanto a mãe deles ama. 

Mães imperfeitas, uni-vos!

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