Leite materno: a gota salva vidas de prematuros

Leite materno: a gota salva vidas de prematuros

São 3 da manhã e o meu despertador toca. Acordo e me sento em frente à bomba elétrica de tirar leite do meu peito, com tudo já esterelizado na noite anterior. Meu objetivo são 30 mililitros que tiro com esforço e armazeno num recipiente de vidro e coloco na geladeira. Às 7 da manhã repito o mesmo procedimento. E às oito horas chego à UTI Neonatal onde minha filha está internada desde que nasceu prematura. Tenho debaixo do braço a sacolinha térmica com os preciosos 60 mililitros de leite que consegui tirar pra ela.

Eu repeti esta cena por muitas madrugadas. Foram quase dois meses. Eu falo com conhecimento de causa: é enorme a diferença que faz para um bebê prematuro receber gotas (sim, porque num primeiro momento são apenas gotas!) de leite materno. Alguns prematuros extremos começam com 1 mililitro a cada 3 horas. Há casos dos que começam com 1 mililitro a cada 6 horas. E vai aumentando gradualmente conforme a aceitação: 3, 5, 10 mililitros.

A importância do leite materno para qualquer bebê ninguém discute, mas para um que nasceu antes do tempo, os estudos provam, ele é ainda mais especial. O leite materno é o único alimento que tem anticorpos que protegem o bebê prematuro contra doenças, mais comuns de ocorrerem do que num bebê a termo. O leite materno tem ainda nutrientes especiais para fazer o bebê crescer. E como o prematuro ainda não tem o sistema digestivo em pleno desenvolvimento, o leite materno é mais fácil de ser digerido e ajuda a completar o funcionamento do sistema digestivo deste bebê.

Às vezes, quando a quantidade de leite materno parecia que não ia ser suficiente para a minha filha ou para outro bebê internado, a gente sofria bastante. Era uma festa quando as enfermeiras diziam: chegou doação! Quem não viveu a experiência de uma UTI Neonatal, não consegue dimensionar a alegria de uma mãe ao ver o estoque de leite materno garantido para ser repartido entre os bebês de diversas incubadoras. É um super alento.

Eu não estou aqui pra dizer que amamentar é algo fácil, nem muito menos que é moleza conseguir retirar leite do peito num momento em que um filho prematuro ainda nem tem condições de sugar, porque eu sei que não é. Mas este texto não é pra deixar nenhuma mãe culpada porque, por vários motivos, não foi possível dar o próprio leite ao filho. 

Aqui eu queria muito conseguir chamar a atenção de quem está amamentando tranquilamente. Não apenas daquela mãe que o leite jorra e ela enche vidros e mais vidros de leite por dia. Mas se você se dispor a doar um vidrinho que seja, isto vai ser útil e não vai fazer falta ao seu filho. Pois quanto mais a gente tira, mais sai - todos os especialistas confirmam isso. Eu consegui doar mesmo não sendo a “vaca leiteira” que eu tanto gostaria. Mas ter doado uma quantidade pequena, sabendo o efeito disso, me deu um orgulho danado de mim mesma.

O trabalho dos "Bancos de Leite" é uma solução incrível: se eu tenho leite, por que não doar para mães que não conseguem amamentar? Uma equação de puro amor e sororidade. Para saber onde doar, veja o Mapa dos Bancos de Leite no Brasil

Fabiana Santos é jornalista, mora em Washington-DC. É mãe de Felipe, de 12 anos, e de Alice, de 6 anos. Ela sempre teve pouco leite, mas se esforçou para amamentá-los, cada um, até os 7 meses de vida. 

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