Ser mãe na Alemanha: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Ser mãe na Alemanha: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Nada nesta vida é só bom ou só ruim, e a experiência da maternidade em um país estrangeiro também não ia ser diferente. Usando o mote “bom, ruim e mais ou menos”, damos sequência a uma séria sobre a maternidade em vários países do mundo. E claro, que os primeiros depoimentos serão sobre a Alemanha, que eu escrevo aqui,  e o Estados Unidos, assunto que a Fabiana escreveu aqui.

O que é bom:

A Alemanha é um país com uma super infra-estrutura pública (educação, saúde, transporte) e onde em comparação com outros países de primeiro mundo o custo de vida é muito baixo. Então só de saída isso já é a coisa legal de ter filhos aqui - metade dos seus problemas enquanto pai e mãe estão resolvidos. Você não precisa ser rico para que seus filhos tenham acesso a oportunidades e serviços de primeira qualidade. Seu filho e o filho da moça que vem fazer a faxina da sua casa vão no mesmo hospital e frequentariam a mesma escola se vocês morassem no mesmo bairro. 

Eu gosto do jeito que as mães alemães educam os filhos. Elas criam filhos independentes e que devem assumir responsabilidades desde pequenos. Quando meus filhos estavam no jardim de infância, eu era a única mãe que ajudava os filhos a tirar casaco, trocar o sapato (as crianças usam uma pantufinha para não sujar a sala). Os outros pais preferiam esperar o dobro do tempo para a criança fazer sozinha do que fazer por eles. Outro dia meu marido alemão institui uma regra aqui em casa: quem leva o lixo lá fora agora são as crianças, que já tem idade suficiente para isso. Achei o máximo e fiquei perplexa como eu nunca tinha pensando nisso - agora essa é uma responsabilidade deles e tem funcionado super bem. A maioria das mães é muito consequente na criação dos filhos: não é não, regra é regra, o que foi combinado não se quebra. Pode parecer meio estilo sargento alemão, mas regras claras dão segurança para as crianças, eles gostam! E não tem discussão - é assim que é. 

Outra coisa que não posso deixar de citar: mesmo vivendo em uma cidade grande e o tempo sendo uma droga, a gente tem muito contato com a natureza. A Alemanha é cheia de parques, bosques, florestas, lagos - a gente aproveita muito - até no inverno!

O que é ruim

O que vou citar não tem especificamente a ver com a maternidade mas com a cultura em si - mas é algo que sem dúvida influencia em tudo. Os alemães em geral têm uma visão bem “densa” sobre a vida. Para mim, pessoalmente, falta leveza e olha que eu estou em Colônia onde estão comprovadamente os alemães mais soltinhos de toda a Alemanha :-) Fico muito atenta à isso, para que as crianças também desenvolvam um lado mais bem humorado, mais leve, que eles aprendam que a gente também não precisa ficar se levando à sério demais o tempo todo. Esse é um lado da cultura alemã que eu acho bem chato, e adoraria que meus filhos conseguissem ver a vida com a leveza e com o bom humor dos brasileiros. 

Outra coisa: o sistema educacional público, apesar de uma qualidade incomparável com o sistema brasileiro, é na minha opinião, meio cruel e bem atrasado (A Alemanha não é a Escandinava!). Explicando de uma maneira bem simplificada, depois de terminar o primário, a criança recebe uma recomendação de acordo com seu desempenho na escola para ir fazer o ensino médio em um “Ginásio”, “Realschule” ou "Hauptschule". Se a criança tem boas notas e consegue uma recomendação para o ginásio, ela irá fazer o Abitur e depois tem passe livre para a universidade e/ou curso superior. Indo para a Gesamtschule ou Realschule o caminho normal seria uma escola técnica/curso profissionalizante. A rigidez deste sistema depende muito da regulamentação de cada estado, e mesmo uma criança que não obteve a recomendação para o ginásio diretamente pode vir a cursar uma universidade por um outro caminho. Mas sério que a gente vai começar a decidir o futuro profissional de uma pessoa com 10 anos de idade? E sério mesmo que essa decisão vai ser baseada em notas? Notas das mesmas matérias que eram ensinadas há mil décadas atrás? Enfim, a discussão é polêmica, mas o fato é que por causa dessa obsessão por notas todo mundo surta -  pais, professores e alunos. Está cheio de alemãezinhos com burn-out por aí. (Para saber mais sobre o sistema secundário educacional alemão, clique neste texto excelente aqui)

O que é mais ou menos:

Acho meio chato a formalidade exagerada nas relações. Por exemplo: você deixou o filho na casa do amiguinho para brincar, pois esteja lá pontualmente no horário marcado, se não pode pegar mal. Tudo tem que ser super combinadinho, não tem muito espontaneidade nas relações. Ou outro dia mesmo, os pais de um amigo do Gael o convidaram para ir com eles e o filho deles em um parque indoor super bacana aqui de Colônia. Eu não sabia se eu devia oferecer para pagar o ingresso da Gael ou não. Deveria oferecer? Ia pegar mal não oferecer? Ó Céus! Mandei um WhatsApp para o meu marido que disse que sim, era melhor eu oferecer. Essa é uma família para qual 10-15 Euros não faz a mínima diferença. Ofereci, o pai recusou, mas não sei… o jeito dele falar, falta aquela generosidade tão típica de nós brasileiros: não foi uma coisa assim: “Imagina… Gael é nosso convidado”, era mais um “Não pode deixar que dessa vez nós pagamos” - mega esquisito, sei lá, como se ele estivesse fazendo um “extra” e não uma coisa de coração. 

Bônus: O que é uma booooosta - viver longe da sua família, comemorar aniversário, Natal e tudo mais sem sua família e ver seus filhos crescendo longe dos avós, tios e primos maravilhosos que eles têm no Brasil. 

Camila Furtado mora na Alemanha há 12 anos e é mãe da Maria de 8 e do Gael de 6 anos. Os alemãzinhos dela falam português fluentemente, amam praia, pão de queijo, feijão e Tim Maia. 

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