Para os meus filhos: a gente também aprende quando fracassa

Para os meus filhos: a gente também aprende quando fracassa

Este não é um texto de sucesso, mas de fracasso. Ok, um mini fracasso mas que me fez refletir e ter vontade de escrever sobre ele.

Eu não sou o tipo de pessoa "jeitosa" para fazer coisas. Eu acho que posso até dar boas ideias, mas essa história de ter o maior talento para pintar, bordar e... montar, nunca foi o meu forte. Aliás, eu, muito particularmente, nunca achei graça de brincar de montar Lego ou Playmobil.

E aí, mesmo sem nunca ter tido sucesso na montagem de qualquer brinquedinho, eu resolvi que ia montar uma mesa (para escritório). Eu não sei onde eu estava com a cabeça quando inventei e me impus esta missão. Ainda mais com duas gavetas! 

E o manual de instrução??? Bem, quem faz parte do time dos "não-jeitosos", como eu, entende bem que o sistema de explicação da Ikea - lugar onde comprei a bendita mesa - exige muita habilidade. Coisa que eu não comprei junto com a mesa.

Claro que eu podia ter arranjado alguém para montá-la, claro que eu podia ter pago a Ikea para fazer o serviço. Mas eu queria "vencer minhas próprias limitações". E, olha, preciso confessar: queria ver meus filhos com orgulho de mim nesta empreitada. Felipe, meu filho, acompanhou o início desta jornada, e eu até que por algum momento estava feliz de ver ele se orgulhando de mim.

Ok. Encaixar a primeira peça não foi um problema. Eles, os problemas, começaram depois de duas horas de trabalho executado. Eu até que fui bem com as gavetas e no reconhecimento de cada peça no lugar certo. Mas o resto foi um desastre. 

A tragédia foi no encaixe. Quem conhece a "resistência" de um móvel Ikea sabe que é preciso ir com muito cuidado. Mas eu não posso só culpar a qualidade do produto. Também me faltou saber posicionar o raio do parafuso, faltou aparafusar uns com mais força e outros com menos. Resultado: dois pedaços de madeira estragados, vários parafusos entortados e uma vontade louca depois de várias horas (madrugada adentro) de tacar fogo na mesa!

Claro que eu xinguei horrores. Eu não disse que seria um post fracasso? Mas depois de enfiar as peças de algum jeito de volta à caixa para devolver pra loja, eu resolvi aplicar a técnica do chilique da minha filha (que tanto já fez sucesso aqui no blog) e constatei que aquilo era um pequeno problema, aliás micro problema. Foi chato? Foi. Frustrante? Muito. Ainda que eu tenha perdido um tempo danado, a “experiência” vai me servir para alguma coisa.

Em vez da aula de "orgulho por superar obstáculos" que eu tanto queria ter dado para os meus filhos, a minha abordagem acabou sendo outra. Afinal, muitas vezes o fracasso vem com força pra nos derrubar. Ele até acaba com projetos, mas serve pra gente reconhecer nossas limitações.

Ninguém é bom em tudo. Ninguém dá conta de tudo. Eu não sou pior porque não consigo alguma coisa. E tudo bem se eu vou precisar desistir de algo na vida. Não me entendam mal. Não é uma lição derrotista que quero passar para os meus filhos. Tentar e se dedicar são ações super válidas e necessárias. Mas ser humilde pra admitir nossos limites também é um valor, não uma derrota. Tudo isso eu disse para o meu filho quando na manhã seguinte ele veio me perguntar: "Montou a mesa?"

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC e tem dois filhos: Felipe, de 12 anos, e Alice, de 6. Ela devolveu a mesa na loja, recebeu o dinheiro de volta e comprou uma outra mesa: que foi montada por um super amiga, expertise em manuais Ikea.

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