Mudei de idéia: não acho nada razoável exigir que meus filhos abracem ou beijem alguém

Mudei de idéia: não acho nada razoável exigir que meus filhos abracem ou beijem alguém

Uma das coisas boas da maternidade é que a gente vai evoluindo com as nossas ideias, que a princípio são incondicionais. Com o tempo, com o crescimento dos filhos ou até com a chegada de mais filhos, a gente vai se aperfeiçoando e melhorando na arte de achar “que sabe tudo”. Como mãe eu acho importante conseguir rever meus pontos de vista constantemente.

Toda esta introdução é pra contar que eu mudei de idéia. Antes eu achava maravilhoso e incrível incentivar meus filhos a serem carinhosos com todo mundo que eu conheço e assim eu ficava insistindo que eles beijassem e abraçassem: um amigo meu do trabalho, uma ex-colega da faculdade, um tio distante, uma prima que chegou de fora… Não faço mais isso. E decidi escrever este texto porque hoje me incomoda ver, por exemplo, uma cena como a que vi ontem: de uma mãe pedindo ao filho de quase três anos para dar um abraço numa amiga dela enquanto a criança demonstrava absoluto constrangimento. 

Eu não estou dizendo aqui de jeito nenhum que a gente não tem que ensinar as crianças a serem gentis e educadas. Mas é que sinceramente hoje eu reconheço que não vai ser um beijo e/ou um abraço forçados que vão tornar meus filhos mais simpáticos com as outras pessoas. Eu não posso impor a qualquer custo um “carinho” que atropela a vontade deles. 

Além disso, todas as orientações para proteger as crianças de abuso sexual são no sentido de mostrar para a criança que o corpo delas lhe pertence e que ninguém pode tocá-la de uma maneira que ela não queira. Simplificando, se eu falo para o meu filho que ele não pode deixar que ninguém o toque de um jeito que o incomode, como é que eu vou ficar ao mesmo tempo dizendo, “por favor, dê um beijo na tia”?

Ser dono do próprio corpo é importante em todas as idades. Eu entendo hoje que se eu quiser que os meus filhos possam dizer "não" quando forem mais velhos, eu preciso começar a respeitar suas posturas agora. E eu acho que os parentes e amigos precisam entender esse “não” sem achar que ele seja uma falta de educação.

Eu sei que alguém pode dizer que é importante a gente ensinar às crianças a demonstrarem afeto, e eu concordo com isto (e não me preocupo.)  Porque entre meus filhos, meu marido e eu: abraços e beijos são um costume que jamais vai deixar de existir, mesmo quando nossos filhos nos ultrapassarem em tamanho. E é dessa forma que eu acho que existe o exemplo para eles serem pessoas carinhosas. Mas serem pessoas carinhosas com quem eles escolherem trocar carinho. 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 13 anos, e de Alice, de 6 anos. Eles moram em Washington-DC. 

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