A primeira neve da temporada

A primeira neve da temporada

Não é a primeira vez (e provavelmente não vai ser a última) que falo de neve aqui no blog. Afinal, quem vem dos trópicos sempre se fascina. Não fez parte da minha infância, era algo que só existia em livros e filmes pra mim. Então não tem como negar que o meu primeiro dia de neve aqui nos Estados Unidos (e lá se vão quase 8 anos) foi de pura alegria e êxtase. Mas como diria aquela piadinha batida. Eu não sabia de nada, inocente… 

Ser turista ou passar apenas um inverno num lugar de neve… é totalmente diferente de enfrentá-la como ela realmente é todos os anos. (No meu caso entre dezembro e março.)

Ao contrário da média americana, eu infelizmente não tenho o costume de checar a previsão do tempo para o dia seguinte. Este é um erro grave. Eu precisava ser mais organizada e mais americanizada nesse sentido. Isso teria me evitado dor de cabeça hoje.

Acontece que eu marquei, desde a semana passada com o mecânico do meu carro (por acaso, um brasileiro bem bacana) de trocar todos os pneus e fazer a checagem dos freios, justamente porque o inverno é uma estação de estradas perigosas e o melhor é estar com o carro 100%.

Eis que o dia amanheceu coberto de neve. E eu não esperava por isso. Carro todo branco, entrada da garagem de casa interditada pelo gelo e crianças sem escola. Aliás, aula cancelada é o que mais acontece quando neva. O distrito escolar é grande, eles precisam ter a certeza de que todas as escolas públicas estão com acesso seguro para quem vai a pé, de carro ou de ônibus. Como não dá pra garantir 100% dessa segurança em todas as escolas: cancelam o dia escolar. E os pais que se virem, porque geralmente (óbvio) ninguém tem o trabalho cancelado (só em situações de neve fora dos padrões).

Foi uma neve fora de temporada, digamos assim, geralmente ela aparece por aqui só no início de dezembro. Não tive tempo de achar divertida, nem de ficar na janela tomando chocolate quente. Precisava limpar o trecho da minha rua que dá acesso à minha garagem (porque isso ninguém faz por você) e tirar o gelo de cima do carro e das janelas. Não é um trabalhinho fácil. Você sua, sua roupa de inverno fica molhada, a neve pesa… mas eu precisava sair de casa.

Depois do trabalho realizado com sucesso e canseira, fiquei esperando a desobstrução da minha rua, estava com medo dos meus pneus não darem conta mesmo com o carro de tração nas rodas. Este é um trabalho eficiente da prefeitura, os caminhões rodam ruas locais e estradas removendo o gelo e derramando sal ou serragem para evitar que os carros patinem nas pistas.

Tive que atravessar a cidade para chegar no meu mecânico. Logo depois da neve, veio chuva, o que deixou o trajeto ainda mais perigoso. Mas eu estava focada em resolver logo a situação de pneus e freios do carro. Deu certo. Apesar da minha longa espera numa cafeteria perto da oficina mecânica, onde escrevi este texto e vejo a neve cair. 

Quando o mecânico me ligou para avisar que eu já poderia ir buscar o carro, eu estava na cafeteria justamente contando a um senhorzinho americano simpático sobre a saga do meu dia. E ele, muito provavelmente com mais de 70 invernos por aqui… se virou para mim e perguntou: “Mas ainda assim: você não acha esse cenário lindo?” Voltei pra casa pensando que tenho que saber admirar mais as coisas, mesmo ela nos trazendo alguns desafios. Afinal, ainda tenho muita neve pela frente. Dar valor ao que sem tem. Acho que era isso que aquele senhor queria me ensinar. 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 13 anos, e de Alice, de 7 anos. Eles moram em Washington-DC. E pensar que ela começou este texto querendo detonar qualquer magia de qualquer floquinho de neve. Pena ela não ter perguntado o nome do senhor “conselheiro” para homenageá-lo aqui.

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