Minhas impressões sobre as Au Pairs brasileiras nos Estados Unidos

Minhas impressões sobre as Au Pairs brasileiras nos Estados Unidos

Recebi um email de uma leitora que estava apreensiva pois a filha está prestes a ingressar num programa de Au Pair - um intercâmbio de um ano numa família norte-americana - e ela, sabendo que moro nos Estados Unidos, queria dividir comigo sua preocupação de mãe e me pediu algumas informações.

O programa é uma troca: o jovem (entre 18 e 26 anos, sendo que alguns programas só aceitam mulheres) se insere na cultura americana, aprende melhor o idioma, conhece pessoas e lugares diferentes, estuda e é remunerado mas vai precisar cuidar das crianças da casa e, muito provavelmente, ajudar a também cuidar da casa, visto que por aqui não existe o modelo de “empregada doméstica” nas famílias de classe média. 

Me deparo com Au Pairs brasileiras constantemente: nos playgrounds, na porta das escolas, nas atividades das crianças. Já flagrei algumas conversas entre AuPairs brasileiras que giram em torno do mesmo tema: elas reclamam muito das crianças, dizem não aguentar mais cuidar dos pequenos, de que estão cansadas, que as crianças são isso, que os pais são aquilo.

Do meu ponto de vista, muitas meninas que chegam por aqui - claro que não todas - não estão acostumadas ou não imaginaram que iriam ter que pegar no pesado como cuidadora de crianças, o que significa: trocar fraldas, dar comida, controlar chiliques, checar uma febre, ajudar no dever de casa, fazer dormir, dirigir carro para elas. É praticamente um trabalho de mãe! E onde a teoria é bastante diferente da prática. Vi, por exemplo, numa propaganda de uma empresa brasileira que oferece o programa, que um dos pré-requisitos é “amar crianças”. Sim, mas além de “amar”, vai ser preciso muita paciência, responsabilidade, comprometimento.

Quem escolhe receber uma Au Pair precisa de uma babá para os filhos pequenos e considera os custos para isso mais em conta. Já que o preço de uma creche por aqui é bem alto e, geralmente, pai e mãe precisam trabalhar. E como toda história tem dois lados: há muitas famílias que recebem estas jovens e abusam da boa vontade delas. Uma amiga, Sara Pimentel, que já fez intercâmbio, me diz: “As au pairs têm que, por exemplo, colocar a roupa das crianças da casa pra lavar. Mas em muitas situações acabam cuidando da roupa da família toda, inclusive dos pais. O que não faz parte do contrato”.

Sara me explica que uma dica de ouro é deixar tudo bem combinado de quais serão as atribuições da Au Pair na casa. “Se você fizer uma única vez o que não estiver acordado, eles vão querer que você faça sempre. Se desde o comecinho as regras ficarem claras, as chances de se sentir sobrecarregada diminuem. É aquela história: o combinado não sai caro”, diz ela. Por isso mesmo, a questão de deixar bem claro os horários de descanso e privacidade é muito importante.

Além disso, morar numa casa de uma família completamente diferente da sua é um desafio. Se a família não toma banho todos os dias (muito comum por aqui) e você é acostumada a tomar dois por dia; se temos o costume de abraçar, já muitos americanos não são tão afetuosos. Estes são exemplos de diferença cultural que a Au Pair vai enfrentar. Outra coisa interessante que a minha amiga pontuou é a questão da objetividade: culturalmente, americanos não dão voltas para dizer algo, eles vão lá e dizem. O que para nós brasileiros (que adoramos contar uma história antes de chegar ao ponto principal) pode parecer grosseria, para eles é apenas praticidade na mensagem.

“Para um intercâmbio de sucesso a au pair precisa estar disposta a viver uma verdadeira aventura, pois ela sairá de sua zona de conforto”, diz Dili Zago Pereira, ex-au pair e atualmente consultora da empresa Experimento, uma das responsáveis pelo programa no Brasil. Para ela, o segredo está na escolha da família: “É importante que a au pair tenha calma e escolha a família certa, não adianta escolher qualquer uma apenas para embarcar logo”, explica Dili.

Eu acho sensacional a oportunidade de um jovem conhecer uma nova cultura, conviver com diferenças, se tornar fluente num outro idioma. É claro que isso tudo traz um amadurecimento e um aprendizado que a pessoa vai levar para a vida toda. Mas para que isso seja realmente proveitoso, acho que é preciso se preparar bem para o que será esse um ano (ou dois) longe de casa.

Em todos os programas, abusos com relação ao trabalho combinado ou de qualquer outro tipo podem ser denunciados e há casos até mesmo de troca de famílias. Mas em vários situações, há histórias felizes de amizade que ficaram pra vida toda. A família anfitriã da minha amiga por exemplo, depois do ano que ela passou morando na casa, resolveu presenteá-la pagando um ano do curso universitário dela. Um carinho e um reconhecimento que ela jamais vai esquecer. 

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