Análise de casais em um voo para Lisboa

Análise de casais em um voo para Lisboa

Estou em um voo de Colônia para Lisboa. Estou sentada no corredor.  Ao meu lado esquerdo está um casal de aproximadamente 60 anos. Levando em consideração o guia de viagens no colo do marido e o papo deles, parece que estão indo passar um final de semana prolongado com os filhos adolescentes, que estão sentados na fileira de trás da gente.

Ao meu lado direito, outro casal.  Talvez sejam um pouco mais velhos, estão igualmente na casa dos 60 e poucos anos e também parecem estar indo para um final de semana turístico em Lisboa.

O casal A (os da direita, com o filhos adolescentes) falam. Bom, a mulher fala. Ela interrompe a leitura do marido, puxa papo. Ele responde com um sorriso mas volta para o guia de viagens. Ela tenta se concentrar numa revista de fofocas, e depois vira para trás e pergunta para a filha se ela sabia que a Lady Gaga ajudou a vítimas do fogo na Califórnia. A filha não responde. O marido, com pena da mulher ignorada, diz que não sabia e tenta voltar para leitura. Ela diz para o filho que ele devia comer. Ela desembrulha o sanduíche do marido. Ela diz que prefere coca-cola light, do que zero. Ela pergunta se está irritando o marido, ele diz que não, e dá um beijo paciente na testa dela. Acho um gesto bonito, mas duvido que ela não esteja irritando levemente, ele e os filhos. 

Casal B, os da esquerda, não trocaram uma palavra, e olha que já vamos para quase duas horas de voo. Ela lê no Kindle, ele lê uma revista de negócios. São sérios. Não há beijo na testa. Não há olhares. Na verdade, eles até aproveitaram que não há um terceira pessoa na fileira, e sentaram separados, deixando o assento do meio livre. Existe, contudo, uma clima de parceria de negócios entre eles, dá para ver no jeito que dividem o saco de batata chips. Ela ficou com o saco, mas antes despejou um pouco de batata em um guardanapo na mesinha dele. A ação não causou surpresa alguma nele que nem precisou tirar os olhos da revista para alcançar uma batatinha. Parece que já usaram este método muitas vezes. Há uma certa cordialidade gentil beirando no ar, mas parecem meio cansados de dividir batatas.

Eu me pergunto se ao chegar nos meus 60 anos, eu preferia ser o casal A, o da mulher levemente neurótica, com um marido levemente irritado, que recebe um beijo paciente na testa. Ou o casal B, composto por marido e mulher levemente entediados, vestidos com roupas elegantes, no qual há um método eficiente de dividir batatinhas enquanto se empunha uma revista de negócios.

Estou ciente de que nada sei da vida dessas pessoas, e que tudo que estou vendo, são apenas minhas impressões subjetivas. Quem pode de fato dizer o que se passa dentro de um casamento a não ser quem está nele? Mas se sob o ponto de vista de uma mera observadora eu tivesse que escolher um casal para ser, eu preferia ser o casal C. 

O casal C não está neste voo. O casal C estava há dois anos atrás, no mesmo voo que eu indo de de Londres para São Paulo. Nunca os esqueci, porque meu coração estremeceu ao observá-los.

Eu estava sozinha, e graças a umas milhas que iam vencer e que precisavam ser gastas, viajando de primeira classe, um luxooo só. Casal C eram dois ingleses, e pelo que foi inevitável não ouvir da conversa, estavam indo visitar a filha que morava no Rio. Eles não viam a hora de ver os netos, parece que um deles tinha acabado de perder um dente da frente, e eles riam ao olhar a foto do banguela no celular. Eles tomavam champanhe, conversavam um pouco, liam um pouco. Me lembro que em algum momento ela colocou o pé no colo dele, e ele começou a fazer carinho com uma mão enquanto segurava o livro com a outra. Quando conversavam pareciam bastante interessados no que o outro ia dizer. A conversa tinha uma dinâmica gostosa - era evidente que eles adoravam a companhia um do outro.


Hoje, sentada entre o Casal A e o Casal B, me lembrei dos conselhos do Obama sobre casamento que rodaram a internet há uns meses atrás. O ex-presidente americano explicou a um membro da sua equipe que as pessoas deveriam  1) ser casar com alguém que achem muito interessante, já que você irá passar tanto tempo com esta pessoa é bom que você tenha interessa em escutar a opinião dessa pessoa sobre as coisas 2) alguém que tenha um senso de humor parecido com o seu 3) e em caso, que você queria ter filhos, casar com alguém que você acha que será um bom/pai ou mãe. A vida é longa, explicou Obama, e isso são coisas quem contam a longo prazo. 


Pois então um brinde ao Casal C, que pelo que tudo indica, deve ter decifrado a arte de se reinventar e continuar sendo interessantes um para o outro depois de tantos anos. 

Camila Furtado mora na Alemanha e foi à Portugal visitar uma amiga. Sua amiga decifrou a arte de ser do tipo D, mãe solteira, dando conta do recado, evoluindo como pessoa e sendo muito feliz.

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