7 perguntas sobre Transtorno Alimentar Seletivo

7 perguntas sobre Transtorno Alimentar Seletivo

Muitas famílias passam pelo mesmo drama: algumas crianças simplesmente se recusam a comer! Acontece que algumas têm “Transtorno Alimentar Seletivo”, que pode ter várias causas, mas que com paciência e bons profissionais: tem solução. Esta foi a história de Bento - hoje com 5 anos e que precisou de ajuda profissional para comer melhor. Aqui, nossas 7 perguntas estão divididas em 3 entrevistadas de Belo Horizonte (o time que ajudou Bento a aprender a comer): a endocrinologista pediátrica, Isabela Pezzuti; a nutricionista, Lélia Figueiredo; e a mãe de Bento, que é psicóloga, Lívia Pires. 

1. O que é o Transtorno Alimentar Seletivo?

(nutricionista) O termo transtorno Alimentar Seletivo ou Transtorno do Consumo Alimentar Evitativo ou Restritivo é uma categoria nova de diagnóstico do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. São pacientes que travam lutas clinicamente significativas com a alimentação. Geralmente crianças que estiveram hospitalizados de forma crônica no início da vida. Além disso, no caso de prematuros, podem ocorrer déficits motores orais (dificuldade para sugar, dificuldade para engolir, refluxo) que dificultam mais tarde o ato de comer porque muitas vezes estão associados à dor. Há ainda muitos pacientes com dificuldades de respirar, que não conseguem respirar e/ou engolir simultaneamente e, sobretudo, sentir gostos e aromas dos alimentos.

2. Qual a diferença entre ter o transtorno ou ser apenas “uma criança mais difícil” para comer?

(endocrinologista) A maioria das crianças entre 2/3 anos tem seletividade alimentar. Então eu não diria que é um transtorno, na maioria delas. Claro que existem situações patológicas que precisam ser avaliadas caso a caso. As expectativas dos adultos em relação à quantidade e/ou qualidade da alimentação da criança muitas vezes são irreais. A criança come muito menos que um adulto, tem saciedade, que precisa ser RESPEITADA. O apetite varia mesmo de acordo com o dia, horário, estado de saúde naquele momento, etc. É claro quer é preciso ter certo controle, garantindo, por exemplo, uma rotina saudável diária para a criança. Mas obrigá-la a comer, definitivamente vai faze-la ter aversão à comida. Nesse estágio forma-se um círculo vicioso, que é um problema.

3. No caso do Bento, foi por causa da prematuridade? Quando os pais descobriram o problema?

(mãe) Bento nasceu prematuro com 27 semanas e 770 gramas. Ele foi diagnosticado desde cedo com hipersensibilidade sensorial. Foi encaminhado para o tratamento com terapeuta ocupacional, por meio da integração sensorial, mas a parte alimentar não era solucionada. Busquei muito, com profissionais diferentes e estratégias diferentes, mas vi que na verdade, quase nenhum profissional sabe o que fazer. De bebê, Bento rejeitava papinhas e só tomava leite e frutas na vitamina. Depois, quando começou a comer, só aceitava carboidratos. Com 4 anos, Bento estava ainda com peso e altura abaixo do esperado e o pediatra sugeriu mais leite. Foi quando a Dra Isabela, endocrinologista, pediu para vê-lo porque disse que a ideia era aumentar o repertório de alimentos, e não diminuir. Simultaneamente a isso, a nutricionista Lélia já estava buscando artigos (internacionais, inclusive), para buscar estratégias. 

4)Que estratégia/ação foi usada, no caso do Bento, para ele comer?

(endocrinologista) Aos 3 anos, quando o avaliei, ele aceitava pouca comida (mas aceitava) e era muito seletivo. A família era muito ansiosa nesta questão e oferecia leite após várias refeições (inclusive almoço e jantar) para completer as calorias que ele não ingeria com a comida. Mesmo assim, quando examinei o Bento, o peso estava adequado para a altura. Dessa forma eu tranquilizei a família, orientei  fornecer apenas 500 ml de leite por dia (ele tomava um litro), apenas nos horários certos (dos lanches) e respeitar sua pouca aceitação dos outros alimentos. Além disso, observei que o Bento era respirador oral. Respirando mal, ninguém consegue comer! Bento também não dormia bem, pois tinha apneias (pela obstrução nasal). Ele foi então avaliado por uma otorrino que corrigiu a obstrução com uma cirurgia.

(mãe) Uma coisa interessante para dizer é que Bento rejeitava o alimento não por causa do sabor mas por causa da textura. A nutricionista Lélia deu dicas de receitas com os ingredientes saudáveis nas texturas que Bento tolerava. Também convidei Bento para participar do cozimento, já que ele gosta de cozinhar.

5)Por que o auxílio de uma endocrinologista e de uma nutricionista é tão importante?

(mãe) O papel das duas foi fundamental. Isabela entrou com a visão do encaminhamento para a otorrino, que culminou na cirurgia do Bento, coisa que nenhum profissional tinha visto. Isso ajudou na alimentação. Além disso, ela com um jeitinho especial orientou Bento, por exemplo, a largar a mamadeira; ele largou porque Dra Isabela falou que o filho dela bebia no copinho, então ele deveria beber também. Lélia entrou com as dicas de receitas e modo de fazer. Isso também foi fundamental.

6)Quanto tempo levou para que o Bento se alimentasse bem? Qual é a média de tempo para isso acontecer num tratamento?

(endocrinologista) Para o Bento foi cerca de um ano. É importante a família entender que não dá pra esperar resultados imediatos, rápidos. E cada criança é uma história.


7)O que os pais fazem equivocadamente e que seria bom alertar?

(mãe) Uma coisa ruim é os pais se desesperarem, o que é muito fácil de acontecer. Isso é ruim porque a experiência alimentar deve ser um momento de prazer e não de tristeza, raiva ou frustração. Assim, brigas, gritos, castigos, forçar a criança a comer, só pioram a situação.

(endocrinologista) Por exemplo, forçar a criança a comer tudo, “se você comer tudo, ganha a sobremesa”. Distrair a criança com telas para que ela coma. Esses comportamentos estão associados, inclusive, à risco de obesidade no futuro. A criança não precisa comer tudo, tem que comer um pouquinho de cada coisa, até ficar saciada. Um dia ela come bem, no outro dia não, e assim vai.

(nutricionista) Além disso, há que se considerar o comportamento do cuidador/família na preparação dos alimentos, a frequência com que novos alimentos são ofertados e consumidos pela família, a forma de apresentação e a dinâmica em torno da refeição.


8) Qual a sensação hoje ao ver o Bento se alimentando bem? O que você diria para as mães que enfrentam situação semelhante a que você passou? 

(mãe) Não tem preço que pague. Sensação de dever cumprido e paz. Quando estamos em paz, somos mães melhores, educamos melhor, melhoramos a relação com a criança e ficamos todos mais felizes. Sei direitinho o que as mães sentem quando os filhos não comem: um sentimento de impotência enorme. A dica que dou é: não se culpe. Se culpar é um movimento narcísico que não leva a nada. Ao contrário disso, responsabilizem-se: uma mãe responsável corre atrás e persevera até achar a solução em benefício de seu filho. 


 































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