A inveja é para os fracos

A inveja é para os fracos

Amigos de verdade promovem resgates cotidianos. Sem precisar sacar um único centavo, te tiram das amarras dos sequestradores que encontramos todos os dias pela frente — sabe aquelas pessoas que roubam, ou tentam roubar, seu bom humor, sua alegria de viver, sua saúde emocional, sua paz, seu talento? Pois é. Está cheio delas por aí. Por isso, precisamos cada vez mais dos nossos protetores.

Recentemente, uma amiga querida me enviou um desses impagáveis resgates. Um vídeo antigo de uma entrevista com Ayn Rand, escritora, dramaturga, roteirista e filósofa norte-americana, em que ela falava sobre a inveja. Digamos que a palava dela é um presente para aqueles dias em que estamos caminhando sozinhos por um escaldante deserto. Todos nós, em algum momento, passamos por essa provação.

Entre as sucintas e claríssimas respostas ao entrevistador, Ayn dizia que a coisa mais imoral que pode existir é atacar alguém não por suas falhas, mas por suas virtudes. “A pior coisa hoje são os ataques às habilidades”, disse, referindo-se ao seu tempo como “A era da inveja”. Já se vão décadas desde essa entrevista — ela morreu no início da década de 1980 — e não podemos dizer que saímos de tal tempo. Ser atacado pelo próprio sucesso é algo comum e corriqueiro nos dias de hoje. Pudera. A origem da inveja é bíblica. Caim matou Abel, por não suportar o sucesso de seu irmão com Deus. O primeiro homicídio da história foi por inveja. E por ela se mata até hoje. Mata, inclusive, a dignidade e o bom senso do invejoso. O sucesso de outrem continua imperdoável, sobretudo para quem nada tem a oferecer, a não ser as próprias opiniões e julgamentos.

Ao ser indagada sobre os críticos ao seu trabalho, que a consideravam “tola”, Ayn Rand foi rápida: “Eles não acham que sou tola; eles querem que você acredite que eu sou”. A resposta dela diz muito sobre os invejosos, sobretudo sobre um tipo específico deles, os invejosos instruídos. Pseudointelectuais são sedentos por buscar nas leituras, nos autores e na própria moral, tão duvidosa, argumentos capazes de denegrir o outro. Sim, frequentemente, acham. Afinal, quem são os infalíveis a não ser os próprios invejosos, capazes de criticar tudo e todos, mas totalmente incompetentes para um simples exame de consciência?

O invejoso é fértil. Reproduz maledicências, ironia, sarcasmo. É mestre em usurpar do outro a certeza de um trabalho benfeito. O invejoso precisa também ser popular. Então, quer que a crítica dele se sobreponha ao ato do outro. Vive da reação à ação dos outros. Veja só que belo objeto para estudo até da física, suponho. O sujeito vive na sombra, embaixo da árvore frondosa, criticando o sol. Sorri e libera endorfinas enquanto fala mal de qualquer coisa que ele não fez. Ele não tolera que alguém seja melhor. Imagine a dor insuportável que é reconhecer que fulano ou sicrano venceu e ele não. O invejoso, além de incompetente, é um fraco. Pobre criatura.

Ana Dubeux é jornalista, pernambucana, torcedora do Santa Cruz, mãe de Gabriel e Helena, avó de Liz. Editora-chefe do jornal Correio Braziliense, ela mora em Brasília. 

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