Ninguém merece brinquedo que fala de madrugada

Ninguém merece brinquedo que fala de madrugada

A primeira bicicletinha da minha filha tinha uma caixa de música na frente, com uma princesinha que cantava e se mexia. De acordo com o fabricante, ela deveria fazer barulho só quando ligada, mas na prática ela foi feita pra me matar do coração.

Por duas madrugadas, justamente em duas noites que meu marido estava viajando, a desgraçada da princesinha começou a cantar. Foi um susto horroroso, até eu entender, sonolenta, do que se tratava e correr na sala. Na primeira vez, eu pensei que tinha resolvido a questão pois eu desliguei o botão e ela parou. 

Mas na noite seguinte, a princesinha voltou a se esgoelar. Irritada, sem conseguir desligar a infeliz, tive que enfiar a bicicleta dentro do carro que fica na garagem de casa, às pressas para os meus filhos não acordarem.

No outro dia, claro, desaparafusei a tal caixa e ela foi para o lixo. Minha filha ficou apenas com o que importava: a bicicleta... e muda. Teve ainda uma boneca enorme que tinha o mesmo nome da minha filha - ela falava a beça e sem mais nem menos gostava de me dizer quando eu chegava no quarto de brinquedos "Oi, meu nome é Alice". Essa foi fácil tirar a pilha bem rapidinho.  

Lembrei destas histórias ao ler os comentários num grupo de mães em que uma delas narrava o mesmo "problema": brinquedos que falam do nada só pra deixar a gente morrendo de medo ou de susto.

Eu preciso dizer que eu descobri que esses brinquedos têm um pacto com algum palhaço que adora ver uma mãe amedrontada. E eles se uniram. O Penico Musical, o Unicórnio Reluzente, a Boneca do Alecrim Dourado, a Fadinha Encantada, o Pianinho das teclas coloridas, a Guitarra da Barbie... Todos os brinquedos registrados no departamento dos "com pilha" ou dos "com bateria" estão comprometidos em tocar o terror e podem ter a certeza: mais de uma vez. Para isso eles têm um acordo sacramentado de:

1- Gostar de se manifestar nas madrugadas;

2- De preferência sem marido ou outro adulto para dar apoio por perto;

3 - Não facilitar a sua vida, já que pra tirar as pilhas é preciso soltar parafusos minúsculos;

4- Fazer você perder o sono (ou o pouco do sono que uma mãe com filho pequeno consegue ter);

5- Deixar você se sentir ridícula por ficar pensando em assombração.

Numa boa... porque um brinquedo precisa emitir som? Vamos fazer as nossas crianças explorarem a imaginação! E aqueles então que escolhem soltar apenas uma frase macabra? Uma mãe relatou que um cachorrinho “americano” várias vezes resolve falar no meio da noite: “I see you…” Ninguém merece! Muitas vão dizer que nem apoiam essa gang, porque nem compram brinquedos assim. Mas aí tem sempre alguém pra dar de presente, né? 

Pois eu sou a favor de uma campanha de prevenção de susto materno com incentivo para o uso de bonecas de pano, massinha, bola de gude e pipa lá fora! Que aliás, faz um bem danado para o desenvolvimento infantil.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC e é mãe de Alice, de 6 anos, e de Felipe, de 13 anos. Faz um tempo que ela já deu fim à maioria dos brinquedos com pilha, mas avisou do perigo a quem quis levá-los embora.

Sem vergonha de trabalho

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"É preciso uma aldeia para criar uma criança"

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