Sem vergonha de trabalho

Sem vergonha de trabalho

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Outro dia recebi de uma amiga a foto da sua mãe trabalhando na cantina de uma universidade aqui na Alemanha. Na foto, ela estava limpando uma mesa com o maior sorriso lindo no rosto. Cinco minutos depois recebo a mesma foto da própria mãe, com a seguinte legenda: “Camis, olha só: virei a tia da cantina - hahahaha!”

A mãe da minha amiga se mudou faz 4 anos para Alemanha porque se casou com um alemão. O marido dela é professor, uma profissão bem paga e respeitada por aqui. Há 4 anos ela está em terras germânicas dando duro para aprender essa língua danada e se adaptar a uma cultura tão diferente da nossa. A filha dela, minha amiga,  é fisioterapeuta e o outro filho é super executivo em uma empresa de telecomunicações no Brasil.

Estou te dando este contexto para que você possa responder a seguinte pergunta: a mãe da minha amiga precisava mesmo virar a tia da cantina? Ela está precisando desesperadamente de dinheiro e topando qualquer coisa? Não. Não haveria problema nenhum se fosse assim, mas não é este o caso. 

O que aconteceu é que ela viu nesse trabalho simples uma chance de melhorar seu alemão, se socializar e claro… ganhar um dinheiro extra para si mesma. Eu aposto que em pouco tempo o alemão dela vai melhorar muito e consequentemente muitas oportunidades pessoais e profissionais irão se abrir.

Assim com ela, um monte de gente que muda para o exterior se vê fazendo coisas que nunca imaginava fazer se estivesse ainda morando no Brasil. Um monte de gente tem que recomeçar do zero, mudar de profissão, descobrir novos talentos e,  às vezes, até se submeter a coisas que preferia não estar fazendo.

O que une essas pessoas além da coragem de recomeçar em um país estrangeiro, é a coragem da humildade. Humildade de aceitar que aqui são outras regras, outro mercado, que aqui se fala uma língua que você não domina como seu idioma materno, que talvez seu diploma não seja reconhecido completamente… que você aqui, provavelmente, não vai poder ser exatamente aquela pessoa que você era no Brasil.

E vou dizer uma coisa que tenho observado nesta minha longa jornada de expatriada: essa coragem, não a coragem de mudar de país, mas a coragem de arregaçar as mangas aceitando com humildade uma nova realidade, essa coragem costuma se pagar no final. 

Gostaria que alguém tivesse me dito isto há 12 anos quando eu cheguei na Alemanha. Apesar ter vindo trabalhar em um das organizações mais bacanas de cooperação internacional da Alemanha (minha área na época), demorei anos para descer do salto e reconhecer com humildade que eu estava em outro mundo e que meu sucesso profissional não iria ser uma extensão fluida e sem tropeços do meu sucesso no Brasil. Eu teria me poupado muito tempo e sofrimento se, no auge dos meus 30 anos de idade, eu simplesmente tivesse admitido para mim mesma que eu estava recomeçando.

Acho que isto é um tema importante para quem acabou de chegar no exterior ou para quem está pensando em sair. Principalmente se você é de classe média. Quem teve uma vida difícil e simples no Brasil e saiu quase por sobrevivência não sofre das crises de afetação da classe média brasileira, essa classe exótica com toques de bizarrice incríveis da qual eu mesma fazia parte.

Claro que pode ser que você saia do Brasil com um contrato de expatriado bacanérrimo, fazendo o que você fazia e ganhando até mais do que você ganhava. Mas se não é este o caso, você vai precisar dessa dose extra de humildade e cabeça aberta para arregaçar as mangas. E quer saber? Se você unir coragem, preserverança e vontade de aprender, ninguém vai te segurar. Tá cheio de brasileiro mundo afora dando show de criatividade, bom humor e trabalho duro por aí. 

 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria de 9 e do Gael de 6 anos. Há dois meses, a baby sitter alemã das crianças que é estudante de pedagogia, foi fazer um intercâmbio na Áustria. Quem está cobrindo a baby sitter, é a mãe dela, uma mulher chiquérrima de 55 anos, integrante da classe média alemã - classe média afetação zero.

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