Carta ao médico que nunca enxergou minha filha de verdade

Carta ao médico que nunca enxergou minha filha de verdade

 Foto: Adriana com a filha Giovanna, na recuperação de uma cirurgia em 2005. (arquivo da família)

Foto: Adriana com a filha Giovanna, na recuperação de uma cirurgia em 2005. (arquivo da família)

Escrevo para exorcizar um medo que nos últimos 18 anos me acompanhou.

Escrevo para um médico que não sei o nome, não sei por onde anda mas que fez parte do dia mais longo da minha vida.

Minha filha, Giovanna, tinha 1 ano e meio. Já havia enfrentado três cirurgias e andava com ajuda de um aparelho ortopédico – uma engrenagem de plástico e metal que começava no pé e só terminava na virilha e deixava aquele pedacinho de gente com um ar de robocop, com passos meio desengonçados.

Mas ela seguia atrás de uma bola e sorria, como qualquer criança. E isso era uma conquista enorme pra quem nasceu com uma das pernas muito deformada devido a uma problema congênito, a Hemimelia Fibular, a ausência de um osso que compromete o desenvolvimento e crescimento do membro mais afetado, no caso dela, a perna direita.

Essa era a perna complicada. Não tinha a fíbula, era encurtada, arqueada para frente. O pé direito tem apenas 3 dedos. Ao nascer, o calcanhar era suspenso, colado na perna, sem qualquer apoio no chão.

Era difícil enxergar um pé ali.

Ela já tinha melhorado um pouco após as primeiras cirurgias, quando busquei ajuda num hospital referência de Belo Horizonte.

Giovanna caminhava cambaleando, mas caminhava.

Foi assim que o médico a quem escrevo examinou a minha filha no começo de 1999, quando finalmente consegui uma vaga.

O ortopedista jovem, cujo nome apaguei da minha memória, olhou aquela criança caminhando na frente dele por alguns minutos e disse: – Melhor amputar.

Só me lembro dessas palavras e da sensação de desmaio que percorreu o meu corpo dos pés a cabeça. Respirei fundo pra não cair.

Precisava ouvir de novo, pra ter certeza que não se tratava de um engano.

– Mãe – dizia ele – quantas cirurgias ela já fez em 1 ano e meio?

– 3, respondi.

– Quantas cirurgias mais você imagina que ela irá fazer, mãe?

Fiquei em silêncio.

– Vai ser assim, ele prosseguiu, passa 1 ano, uma cirurgia. Outro ano, outra cirurgia. Ela cresce mais um pouco e volta para o bloco cirúrgico. Risco demais. Sofrimento demais. Não vale a pena. Melhor amputar.

A Giovanna continuava atrás da bola, sem nada perceber. E eu, atrás de uma luz, de algo em que pudesse me agarrar.

E aí veio um número na minha mente: 18.

Tinha poucas forças e poucas palavras pra dizer a ele. Mas disse.

– Ela está andando com as próprias pernas, com os próprios pés. Você não está vendo?

E dei a minha decisão de mãe, assim, com a perna bamba, o coração disparado e o choro por um fio.

– O dia que ela fizer 18 anos, se ela quiser amputar o pé, ela vem aqui, te procura e autoriza a amputação.

Saí do hospital aos prantos. Lembro de uma funcionária tentar me acalmar. De chorar ao volante a caminho de casa, já atrasada para o trabalho.

Almocei pizza às pressas, corri para a redação onde uma pauta me esperava, na época era repórter do “Jornal Nacional”.

Um dia que parecia interminável… Mas ele terminou.

Aquele dia de 1999 terminou no dia 6 de outubro de 2015, o dia em que a minha filha completou 18 anos.

Os 18 anos da Giovanna chegaram.

Ela continua baixinha o que a faz parecer mais uma adolescente do que uma quase adulta.

Ela já não tem aparelhos nas pernas. Tem cicatrizes. Muitas.

O doutor tinha razão em algumas coisas. Foram muitas cirurgias. Dez no total.

Foram muitos meses com a perna e o pé engessados, muitos meses de cadeira de rodas, de muletas, muitas dores, muita morfina e muito medo.

E as palavras daquele médico só fizeram agigantar o medo dentro de mim. Um pavor que quase me paralisou. Quase….

Todas as vezes que levei a minha filha para uma cirurgia corretiva, todas as vezes que assinei os formulários hospitalares consentindo os procedimentos e reconhecendo os riscos de uma anestesia geral e de horas e horas sedada num bloco cirúrgico, em todos esse momentos, em 18 anos eu me lembrei das palavras daquele médico.

Todas as vezes pensei: e se ele estiver certo? E se eu me despedir dela na porta do bloco cirúrgico e nunca mais a reencontrar viva?

E se tiver qualquer complicação, qualquer infecção e o resultado for mesmo a perna amputada?

As palavras dele doeram profundamente em mim.

E todas as vezes pensei em desistir.

Mas não desisti. Graças a ela.

A cada cirurgia, quando eu me debatia em dúvidas, olhava pra Giovanna e via paz, tranquilidade, uma menina forte para enfrentar tudo que vinha pela frente.

Via uma menina que mesmo quando tinha dores, quando estava cheia de pinos nas pernas, alongadores e uma coleção de cicatrizes, seguia pelo mundo com um sorriso de esperança no rosto. Via a menina que aquele médico não enxergou e nem fez tempo pra isso.

Aos 8 anos ela já não cambaleava mais atrás da bola.

Andava, cada vez com mais segurança, me seguindo pelo mundo: Minas/Brasília/São Paulo/Nova York/Londres/São Paulo.

Nas minhas conexões como jornalista, mudei de trabalho e vim para a Record. Mudamos de cidade e de país algumas vezes mas sem nunca abandonar o roteiro de cirurgias e tratamentos que tinham idade, hora certa pra acontecer.

Descobrimos que para o tratamento de deformidades congênitas não há concordância sobre qual a melhor conduta.

São muitas possibilidades. E seguimos a linha da ortopedia que defende que o pior membro é melhor do que uma perna mecânica (prótese), desde que haja possibilidade de correção para dar ao paciente funcionalidade.

E a Giovanna estava nesse caso. Por mais que aquele pé direito a primeira vista pudesse parecer irremediável, ele tinha ossos e estruturas que podiam ser aperfeiçoados. A perna direita, também.

Decidi dar a minha filha a chance de caminhar com a própria perna, de sentir a própria pele, os nervos, ossos e tendões que nasceram com ela.

Assim, a cada 10 ou 15 centímetros que a Giovanna crescia, tinha que voltar para o hospital. A perna direita dela não crescia no mesmo ritmo e tinha que ser alongada.

E assim foram 10 cirurgias. Até que a fase de crescimento chegasse ao fim e as últimas correções pudessem ser feitas.

Só numa das cirurgias, durante o primeiro grande alongamento, quando ela ainda não conhecia as dores de ter na perna pinos externos pra girar a cada 6 horas e forçar um crescimento do osso, vi minha filha se desesperar.

Ainda internada, no auge da dor, quando faltavam longos 30 minutos para a próxima dose de morfina, ouvi minha filha dizer assim:

– Por quê comigo? Por quê? O que eu fiz pra merecer isso?

Saí pelo corredor aos prantos por não ter as respostas e mais ainda pela impotência de não poder arrancar aquela dor que massacrava quem eu mais amava.

Implorei pela morfina antes do tempo e enquanto ela adormecia instantaneamente ao pingar das primeiras gotas na veia, mais uma vez repensei se valia a pena seguir com as cirurgias.

Chorei, rezei, umas tantas vezes pensei na possibilidade da amputação. Mas me acalmei e mantive a decisão de avançar no tratamento.

Nas cirurgias seguintes de alongamento ósseo a dor extrema não se repetiu.

Era como se o corpo dela já tivesse calejado para aquele tipo de dor. Ela já conhecia e vencia aquele terror.

Isso aos 12 anos de idade.

O que vinha depois, gesso, cadeira de rodas, muletas…. tudo era leve demais perto das horas de pavor que eu vivia na porta do bloco cirúrgico e que ela vivia nas primeiras 24 horas do pós-operatório.

Seguimos lutando contra o medo.

Para comemorar o aniversário dela, fiz homenagens de mãe apaixonada, dei presentes, fiz festa.

Mas essa data não se completaria se eu não escrevesse esse texto.

Na verdade aquele dia de palavras duras e ditas secamente só termina mesmo hoje.

Quando eu penso pela última vez naquele médico.

Minha filha não vai voltar ao consultório dele e autorizar a cirurgia de amputação.

Hoje ela tem as pernas do mesmo tamanho, o calcanhar quase todo apoiado no chão. Tem dificuldades para usar salto alto, mas já não precisa de nenhum aparelho ortopédico na perna.

E não precisa de mais cirurgias. Usa tênis quase todo o tempo, anda, corre, faz ginástica, nada, estuda, viaja, pega metrô, sai com as amigas…

E aos 18 se prepara para o vestibular de Medicina. Ortopedista, ela diz que não deve ser. Mas não sabe ainda qual especialização seguir. Cedo demais pra quem tem só 18.

Pra mim não importa. Ela tem direito a mudar de ideia quantas vezes quiser. Mudar de profissão, inclusive, se em algum momento achar que não é a Medicina o caminho.

Mas se for… sei que vai nascer de dentro dessa garota uma médica de verdade.

Capaz de olhar o paciente por completo.

Capaz de entender as dores do corpo, mas também da alma.

Capaz de saber que as palavras curtas, duras e secas de um breve diagnóstico podem machucar profundamente. Podem deixar cicatrizes difíceis de apagar.

Capaz de entender que ser médico não é apenas dominar a teoria científica.

É também ser capaz de se colocar no lugar do outro, com isenção, com ética mas também com respeito e um mínimo de compaixão.

Porque pacientes são pessoas, não números.

Capaz de entender que o tratamento que mais lhe parecer correto pode e deve ser reconsiderado caso a caso, paciente por paciente.

Porque pessoas tem histórias, medos, desejos, dúvidas e não só uma série de sintomas ou anomalias.

Pessoas como a minha filha precisam da sabedoria médica, do bisturi mas também do afeto que tanta falta fez naquele dia.

Aquele médico pode até hoje acreditar que a amputação é o melhor caminho.

Como mãe da Giovanna me permito questionar e acreditar que muitas amputações em casos semelhantes poderiam ser evitadas.

Aquele médico poderia ter feito a mesma proposta de tratamento. Mas com uma dose de generosidade.

Um tratamento humanizado não é pedir demais, é?

Felizmente a Giovanna teve dois grandes médicos que lutaram por ela.

Que acreditaram todo o tempo que era possível dar a ela a melhor condição física pra que ela alcançasse a independência que tem hoje.

Ela venceu e tem nesses dois grandes médicos enormes fontes de inspiração pra quando e se um dia chegar a vez dela vestir o jaleco branco.

Mas esse já é assunto para outro texto.

Por ora quero apenas que ela sorria pra vida e pra sua infinidade de sonhos, oportunidades e caminhos.

Como toda menina de 18 merece sorrir.

Eu sigo bem mais leve.

E, finalmente, encerro aquele dia e me liberto do sofrimento que ele me causou ao digitar esse ponto final.

Adriana Araújo é apresentadora do "Jornal da Record". Ela escreveu este texto quando Giovanna completou 18 anos, publicado na Folha de São Paulo. Agora, a filha está com 20 anos e as duas estão exultantes: Giovanna acabou de entrar para o curso de Medicina! Agradecemos à Adriana por nos autorizar a publicação do texto.

Precisamos ficar do mesmo lado

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Sem vergonha de trabalho

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