7 perguntas para a jornalista Cleisla Garcia: "Suicídio entre jovens: já não é possível, nem aconselhável, manter esse assunto embaixo do tapete."

7 perguntas para a jornalista Cleisla Garcia: "Suicídio entre jovens: já não é possível, nem aconselhável, manter esse assunto embaixo do tapete."

Cleisla Garcia tem 43 anos, é goiana, repórter especial da Record em São Paulo, casada com um fotógrafo (Marcelo Pereira, autor da foto que ilustra a entrevista) e mãe de Lis. "Ser mãe de uma pré adolescente foi um dos motivos que me fizeram escrever sobre esse tema delicado e rodeado de tabu", diz a jornalista que está lançando um livro sobre prevenção ao suicídio.

1- O que lhe tocou para colocar o material das reportagens num livro?

Em 25 anos de carreira, o tema me agrediu tanto que pensei em recusar a pauta. Mas como no processo de captação sempre aprendo muito, resolvi insistir. Isto ocorreu em tempos difíceis de "Baleia Azul", o jogo mortal que já fazia suas vítimas pelo mundo. A equipe da Record TV se empenhava em fazer um trabalho documental caprichado, delicado e preventivo, seguindo todas as orientações da Associação Brasileira de Psiquiatria. Quando começei a estudar as cartilhas e me encontrar com as famílias das vítimas, fiquei impressionada. Adoeci na época, mas virou uma questão de honra me juntar ao front onde mestres, doutores e instituições sérias já lutam há decadas. Depois que a série acabou, não conseguia parar de estudar e pensar no assunto. Assim, veio o livro.

2 - Quais são as causas do suicídio entre os jovens? 

Não só entre os jovens, mas em toda a população, as principais causas do suicídio são os distúrbios e transtornos mentais. Nem sempre severos. Depressão e alteração brusca de humor (bipolaridade) também entram nesta classificação. O Brasil é o campeão mundial de ansiedade, por exemplo. No caso de jovens, a impulsividade, o uso de álcool e drogas, a dificuldade de lidar com as frustrações, o uso excessivo das tecnologias e os abusos de toda ordem, como o bullying, a humilhação repetitiva por conta de qualquer forma de preconceito intenso, podem contribuir.

3 - Uma criança ou jovem com várias horas de acesso por dia à internet é motivo de preocupação? O jogo Baleia Azul, que muito foi falado na mídia, ainda é uma ameaça? 

Jogos como o Baleia Azul, e outros, escondem grandes armadilhas com a atuação cruel de psicopatas. Mesmo assim, não é o mais grave. O excesso de tempo perdido é o mais preocupante e reincidente. O mundo virtual tem roubado as horas preciosas do viver real. Deixar de brincar, se divertir, fazer atividade física, compartilhar a vida de verdade com amigos e com os pais é um prejuízo incalculável. Mas os especialistas não recomendam a proibição absoluta de celulares e tablets. O importante é oferecer alternativas para a ocupação valorosa do tempo, estar atento ao conteúdo visto pelo seu filho. Assim, podemos ter jovens menos vulneráveis a qualquer tipo de cilada. Da internet ou da vida. A grande dificuldade é que, muitas vezes, os pais estão mais viciados do que os filhos e não têm a decisão moral ou a escolha consciente de ensinar pelo exemplo. A única forma eficaz de educar. A culpa também é um grande inimigo. Como diria a psicóloga, escritora e pedagoga, Elizabeth Monteiro: "Pais culpados não são capazes de educar".

4 - Como os pais podem perceber algo de errado? Quais são os sinais? É possível falarmos em prevenção?

O isolamento repentino, a mudança brusca de comportamento, alterações no apetite, no rendimento escolar. Tudo isso são indicadores de que algo não está indo bem. Falar muito sobre temas macabros e mórbidos também deve servir de alerta. Segundo os especialistas, os pais devem se aproximar com afeto, sem brigas e cobranças. Se não souber o que fazer, procure a ajuda de profissionais. Procure com urgência em casos de manifestação de comportamento de risco e ideias suicidas. Qualquer um pode acionar o CVV (188), uma das instituições mais capacitadas para o tema. Voluntários habilidosos são preparados pra isso e sabem o que fazer. Quem pensa em se matar, emite sinais. Mesmo que sejam sutis. Fique atento. O maior mito sobre suicídio é que “quem ameaça, não quer se matar, quer apenas chamar a atenção”. Melhor não acreditar nessa falácia. A boa notícia é que quando se recebe atenção devida e atendimento adequado, o suicídio é evitável em mais de 90% dos casos. Recentemente, o CVV criou mais uma plataforma de auxílio, o GASS - o Grupo de Apoio aos Sobreviventes do Suicídio - que oferece reuniões, palestras e apoio emocional a familiares e vítimas.

5 - E as escolas, elas estão colaborando na prevenção?

No Brasil e no mundo, podem ser vistas pequenas iniciativas mas ainda de forma sutil e pouco prática. O assunto ainda é tabu. De um modo geral, pais, educadores e a sociedade ainda não sabem lidar com o tema. A série da Netflix ajudou a popularizar o assunto, provocou curiosidade, escancarou as feridas, mas não conseguiu caminhar para um programa de prevenção eficiente. Todos os anos, só no Brasil, são cerca de 12 mil mortes. Já não é possível, nem aconselhável, manter esse assunto embaixo do tapete. Os números mostram que precisamos urgente falar sobre e fazer algo eficiente, de maneira coletiva. A cada pessoa que se mata, quase 20 são afetadas de maneira direta e indireta.

6 - No seu livro,  o que dizem os especialistas aos pais? 

Segundo especialistas das mais variadas linhas de educação e psicologia: Seja presente. Não importa o tempo disponível. Saiba ouvir, respeitar o afastamento temporário da adolescência, sem abandonar. Não pague ausência com presentes. Não ofereça um celular de última geração com internet ilimitada para o seu filho. Isso vai te limitar. Seu filho não é um executivo. Quando trabalhar, poderá comprar o dele. Steve Jobs, o criador da Apple e do IPhone permitia que os filhos só usassem celular e tablets 2 horas por dia. Bill Gates também. Frustrações e desilusões fazem parte da vida. A relação entre pais e filhos durante a juventude não começa aos 14,15, 16 anos. Começa na barriga. Parceiros não se formam do dia pra noite. As portas dos quartos podem estar fechadas, nunca trancadas. Isso vai te ajudar a perceber mudanças de comportamento. Não tente controlar tudo com regras que nem você cumpre, mas fique atento aos sinais. Os pais não precisam saber tudo. Mas devem procurar ajuda assim que se sentirem incapacitados.

7- Qual o relato que você ouviu que mais lhe tocou e que está no livro?

Todos os relatos me tocaram muito. Mas falar com Dona Antônia, mãe da menina Maria de Fátima, a primeira vítima fatal do Baleia Azul no Brasil foi comovente e inesquecível. A mãe é doméstica no Mato Grosso, tinha uma filha linda e estudiosa. No aniversário dela, se esforçou para comprar um celular para a menina que queria ser professora. Curadores do jogo levaram a estudante a uma morte cruel, um suicídio induzido, considerado crime pelo Código Penal brasileiro. Eu não sabia o que dizer àquela mãe. Mesmo assim, ela falou comigo por muito tempo, desabafou, se remoeu. Com a única intenção de ajudar a prevenir. Foi o relato genuíno da dor pra que outras mães não enfrentem situação parecida numa fase da vida que teria tudo para florescer.

O livro: "SobreViver: Como ajudar jovens e adolescentes a sair do caminho do suicídio" (Editora Benvirá/Grupo Saraiva), de Cleisla Garcia, está previsto para ser lançado em abril deste ano, mas já está em pré-venda na Amazon e na livraria da Folha. Todos os direitos autorais serão destinados ao CVV e instituições filantrópicas voltadas para o tratamento de transtornos mentais.

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