Se a gente não começar desde cedo nossos filhos jamais serão pessoas que colaboram com os outros

Se a gente não começar desde cedo nossos filhos jamais serão pessoas que colaboram com os outros

Na escolas públicas de ensino fundamental aqui nos Estados Unidos, no quinto ano, todos os alunos precisam se voluntariar para prestar algum serviço. É a regra. E dentre estes voluntários existem os "patrols": cuidam do trânsito na porta da escola, fazem os carros pararem nas ruas mais tranquilas (obviamente que nas de grande fluxo existem guardas de verdade) e ajudam os menores a descerem do carro e entrarem na escola. 

Numa manhã, no último inverno, estava um frio do cão. -3 graus Celsius e mais um vento gelado que fazia a sensação térmica ser ainda pior. O “patrol” que ajuda a minha filha a descer do carro estava lá, pronto como sempre, mas não tão firme e forte como de costume. Ao abrir a porta do meu carro, ele deixou a formalidade do cargo de lado e soltou um: “Nossa, está frio demais!”. E eu prontamente comecei a elogiá-lo, disse que ele era muito corajoso por estar ali com aquele frio e que eu era grata dele estar ajudando as crianças. Ele, do alto dos seus 10 anos, olhou bem pra mim e disse: “Mas este é o meu trabalho!”.

Sai dirigindo e pensando sobre o quanto essa sementinha de comprometimento vai fazer diferença na vida daquele menino. E o tanto que esse movimento engajado, em favor do outro, “porque alguém tem que fazer e que seja eu”, faz diferença no jeito de viver do americano. Longe de mim ficar dizendo que eles são maravilhosos enquanto sociedade (este texto não é para apontar os defeitos). Mas eles sabem como ninguém exercer cidadania.

É por causa desse voluntariado que começa de pequeno, que lá na frente eles se comprometem na maior naturalidade a limpar em conjunto o jardim do condomínio, escolhem um fim de semana para pintar a escola, organizam festas para angariar fundos e trocar o piso da quadra de basquete, por exemplo. E isso em qualquer comunidade: de gente com muita ou pouca grana.

A questão de estar envolvido é tão parte do dia a dia que nenhum pai ou mãe deixa de mandar o filho para o seu devido trabalho voluntário mesmo com o frio abaixo de zero. E olha que este time de guardinhas têm que chegar mais cedo na escola.  

Além do mais, o fato dos mais velhos ajudarem os mais novos dentro da escola, com certeza diminui a incidência de bullying. Eu me lembro bem que eu tinha pânico das crianças mais velhas no ensino elementar e no caso da minha filha, ela tem muito orgulho de ser amiga dos "patrols do quinto ano" .   

Eu queria tanto que no Brasil essa “moda” pegasse. Tanta coisa que se imita dos Estados Unidos e que não serve pra nada. Por que não copiar o modelo: “vou fazer do meu filho alguém comprometido”? Ficar sentado no sofá vendo televisão e pedir para a empregada trazer um copo de água ou achar absurdo a professora entregar o pano para o aluno limpar o chão que ele mesmo sujou: não ajuda. 

Alguém vai dizer que precisamos tomar cuidado para não “atrapalhar” a infância ao ficarmos listando uma série de obrigações para os pequenos. Mas não é disso que estou falando. As responsabilidades precisam e devem ser proporcionais às idades, mas não podem ser ignoradas. E tem muita coisa que podemos inserir de forma bem lúdica mas já marcando terreno sobre “fazer a sua parte”. Ajudar a guardar os brinquedos depois que a brincadeira termina pode ser um primeiro passo.

Da minha parte, sigo repetindo insistentemente o quanto é importante colaborar. Arrumar a cama, separar o lixo reciclável, guardar a louça, colocar o lixo lá fora, separar as roupas limpas para guardar... estão na lista das atribuições dos meus filhos. Ah… mas eles fazem tudo sem reclamar? Claro que não. Mas nem por isso eu desisto. 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 13 anos, e de Alice, de 7 anos. Eles moram em Washington-DC. Uma das coisas que a mais nova gosta de ajudar é recolher as folhas secas do jardim no outono (foto abaixo).

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