O que eu quero dizer pra quem está deixando o Brasil agora

O que eu quero dizer pra quem está deixando o Brasil agora

Já não é exatamente uma novidade que o Brasil vive uma espécie de êxodo, mas cada vez mais gente que conheço está fazendo de tudo para ir embora. É um amigo querido querendo gastar sua aposentadoria em Portugal, uma prima indo com a família para o Canadá, uma amiga do Facebook que vendeu tudo e acabou de desembarcar na Itália. E hoje descobri que um cara que admiro muito, juntou a mulher e duas filhas, e está zarpando para a Califórnia, nos Estados Unidos. Isso para falar de quem estou lembrando mais recentemente.

Escrevo esse texto com o coração apertado. Pode parecer fácil para mim, que já estou fora há 7 anos e que saí sem nenhuma pressão e deixando pra trás uma ótima situação de vida no Brasil. O que mais ouço de amigos é “que sorte a sua você estar aí” ou “queria muito estar no seu lugar”.  Mas eu consigo entender completamente a sensação de impotência, de medo pelos filhos, de insegurança, de falta de perspectiva de quem desiste do Brasil nesse momento. 

Eu juro que eu gostaria de poder dar, para todos esses amigos e parentes que vão enfrentar uma nova vida, uma espécie de cartilha de adaptação. Sim, porque o comecinho numa outra cultura não é mole pra ninguém, nem mesmo para quem não aguenta mais o que vem acontecendo no Brasil. 

Para um amigo, o que citei acima que está indo para a Califórnia, eu arrisquei dar um conselho. Ele tem duas filhinhas e mandei pra ele hoje uma mensagem assim: “Não deixe jamais de cativar o amor pelo Brasil no coração das suas filhas”. Isto pode parecer piegas e irrelevante num primeiro momento mas tem um significado enorme. 

Eu acho mesmo, pela minha experiência, que você precisa manter uma sensação de pertencimento. Sempre achei muito triste famílias (e conheço muitas) que abandonam tanto o português quanto a vontade de mostrar o que o Brasil tem de bom para os filhos. Eu sou 100% a favor do lema: “Eu saí do Brasil, mas o Brasil nunca vai sair de mim”. Afinal, todo mundo tem uma origem, carrega uma bagagem do que já viveu. Quando isso se perde, fica tudo muito esquisito.

Eu penso que não se pode trazer na mala o estigma de país derrotado, mas uma memória afetiva que jamais deve ser destruída. Pequeninas coisas, mas que juntas montam quem somos. Faça panela de brigadeiro, faça arroz com feijão. Lembre-se das cantigas de ninar, use a bandeira em dia de jogo. Ofereça nossa caipirinha, nosso pão de queijo. Escute nossa música, prestigie nossa arte quando ela estiver em turnê. Vibre quando encontrar cajá-manga num supermercado ou descobrir um móvel “made in Brazil”.  Estique a conversa com quem quiser saber mais sobre o Pantanal ou Villa-Lobos. E se surpreenda com a quantidade de gente de outras culturas fascinada pela nossa. 

Plante orgulho. Mesmo com as atuais circunstâncias, ensine seus filhos que ainda há muitas razões para amar o Brasil. 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 13 anos, e de Alice, de 6 anos. Eles moram em Washington-DC. Outro dia, o pai da coleguinha da Alice, um americano, queria muito saber onde encontrar açaí pois ele havia provado e tinha adorado. 

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