Onde estava a mãe dessa criança?

Onde estava a mãe dessa criança?

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Uma das primeiras coisas que passa na nossa cabeça quando nos deparamos com um caso de abuso como o da jovem ginasta McKayla Maroney, atacada sexualmente durante anos pelo médico da equipe dos Estados Unidos é: “onde estava a mãe dessa menina que não reparou o olhar triste ou que algo de errado estava acontecendo?”.

É a mesma coisa que pensamos quando uma criança da escola tem piolho repetidamente ou quando um notório fazedor de bullying segue sem consequência. Pensamos isso também quando um adolescente é pego distribuindo drogas para os amigos e quando uma menina é vista só de sutiã no Instagram: Onde está a mãe dessa criatura que não dá modos? Que não ajuda? Que não cuida?

É uma indagação interessante sob várias óticas. Primeiro, porque ninguém se pergunta cadê o pai. Geralmente recai sobre a mãe qualquer desleixo ou falta de cuidado com os filhos. É curioso pensar que as mulheres ainda são aquelas que devem zelar pela família, e que em casos como o da ginasta americana, logo nos vêm em mente: onde estava a cumplicidade mãe e filha? Por que essa menina não falou com a mãe? O que há de errado com essa mulher?

Outro ponto interessante que esse jogar de responsabilidade sobre a mãe suscita é: o que é afinal ser uma boa mãe? Há tantas definições para isso que se juntarmos todas entenderemos porque os super-heróis, no geral, não têm filhos.

Se trabalha duro para pagar as contas e acaba terceirizando o cuidado dos pequenos, é ausente. Se está em casa e leva uma vida modesta pois abdicou do trabalho fora para cuidar da prole, é largada.

Olha, tá difícil ser mãe.

Agora imagine a tristeza dessa mulher que descobre que a filha foi abusada e ela não percebeu? Fruto de uma sociedade que cobra o impossível de todas nós, até ela deve se sentir culpada. Muito.

Mas e se fosse você? E se de repente sua família fosse acometida por uma dessas notícias bombásticas (abuso, buling pesado cometido pelo filho, drogas...)? Será que é tudo tão perceptível assim?

Neste momento é impossível não lembrar do filme Precisamos falar sobre Kevin, em que acompanhamos o calvário da mãe que tenta a todo custo fazer do filho estranho uma pessoa normal. Pra nós, sentados no sofá em frente à tela, é tão óbvio que vai dar merda. É tão nítido como cada acontecimento vai levar aquele moleque a atirar contra os colegas da escola.

Mas a vida não é um filme e nem uma notícia do jornal com começo, meio e fim. A vida é só o presente e, nós, muitas mães, lutando para seguir (achar, adivinhar) o caminho que parece correto.

Onde estava essa mãe? Muito provavelmente ela estava lá, tentando entender o olhar triste da filha ou levando o moleque na terapia. Ali, fazendo a comida que ele mais gosta e colocando de castigo quando necessário, como eu, você e todas nós.

Lia Bock é jornalista e escritora. Sócia do ex-marido no programa Ex-casados no Youtube, sobre separação humanizada. É autora do livro Manual do Mimimi (do casinho ao casamento e vice-versa) e coautora de dois filhos lindos: Ernesto, de 9 anos e Matias, de 4. Você encontra a Lia aqui:  https://www.facebook.com/euliatulias/ e  https://twitter.com/euliatulias e também no  UOL, onde este texto foi publicado originalmente.

 

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