Um viva a minha vida imperfeita

Um viva a minha vida imperfeita

Esta semana me encontrei sentada na sala de espera do centro de radiologia de Colônia para fazer uma mamografia. Aqui na Alemanha a recomendação é fazer mamografia a cada dois anos a partir dos 50 anos. Antes, só se a paciente tiver algum caso de câncer na família ou se houver uma indicação. Eu estava lá porque havia uma indicação. Uma indicação bem leve com a qual minha médica não estava preocupada, mas ela tinha, contudo, que checar todas as possibilidades, “para ter certeza”. Nesta uma semana pela qual passei por um monte de exames inesperados e urgentes, tive medo. Que a gente vai morrer, é claro. Mas a gente não quer morrer cedo demais (ainda mais se você tem filhos, porra) e a gente não quer também que seja sofrido.

Apesar de eu não ter muito o perfil de hipocondríaca, de vez em quando passava na minha cabeça: “ok, é bem improvável, mas … e se?” . E toda vez que eu pensava “E se?”… eu olhava para minha vida sob uma outra perspectiva. Desde a bagunça no quarto das crianças até o dead-line missão impossível que meu chefe me deu no trabalho, passando pelo desentendimento com o pintor de paredes, todas as coisas que tinham me irritado ou me deixado triste nos últimos meses perdiam a importância. E se eu fosse mais longe e tentasse me lembrar de coisas que tinham me irritado ou me deixado triste nos últimos ANOS, eu percebia que na verdade, essas bobagens não apenas não tinham mais importância como elas praticamente não existiam mais na minha memória.

Não é que diante da possibilidade de morrer aos 42 anos, minha vida tinha se tornado perfeita. Mas é que mesmo imperfeita, eu conseguia ver com claridade que havia - que há - um monte de coisas, um milhão de coisas pela qual eu posso ser verdadeiramente grata e me alegrar. Pena que a gente precisa de uns sustos para acordar.

Há dois meses fui tomar uma cerveja com um amigo muito querido. Mega companheiro de baladas e loucuras da época pré-kids.  Como fazia tempo que não nos víamos, passamos a noite inteira relembrando nosso ano dourado em Barcelona e todas as aventuras que se seguiram nos anos seguintes. Ah… como a vida era tão cheia de possibilidades naquela época…  A gente ia ser presidente do mundo, casar com as pessoas mais maravilhosas possíveis (que agora sabemos só existem na nossa imaginação) e continuar, claro, fazendo viagens incríveis e nos divertindo horrores. Além de relembrar os velhos tempos, nosso outro tema foi a transferência dele de uma cidade que ele amava para uma cidade pequena no cú do mundo, e como a vida dele era um tédio desde da mudança. Mesmo ganhando suuuuper bem, e sabendo que com um pouco de esforço e planejamento a “fase cidade no cú do mundo” era provavelmente temporária na sua vida, ele estava acometido por uma ansiedade terrível: por que eu não fui transferido para Sidney que nem o fulano, porque logo EU - esse ser humano azarado - tenho que ir para o cú do mundo? 

Corta.

Exatas 3 semanas depois ele me escreve para dizer que o filho dele está com um problema de saúde muito grave. Trocamos várias mensagens desde que ele me deu a notícia, e na última ele me escreveu a coisa mais linda… “Sabe de uma coisa, Camis… Depois que a gente passar por tudo isso, nossa vida vai ser fucking easy como ela era quando a gente era jovem. Porque no fundo, é isso que a vida de pessoas como nós, que vivem nestes oásis de segurança e prosperidade, e além disso tem saúde é: nossa vida é fucking easy.”

Sempre quando me deparo com um drama pesado tipo esse pelo qual meu amigo está passando agora, tento me lembrar da minha própria sorte e combinar comigo mesma de não reclamar mais da vida. Afinal exatamente como o meu amigo, de vez em quando eu também olho para tudo e me pergunto: Mas porque EU - eu, essa COITADA!!! Aliás... eu e meu amigo só não - não me diga que você nunca?

Sabe, a gente se sentir triste, decepcionado, frustado, ok. São coisas da vida, são sentimentos humanos que vem (e que passam) e a gente não precisava viver em negação, como se eles não existissem. (Aliás tenho percebido que negar que nossos sentimentos negativos existem e se involucrar em um positivismo falseta, só piora as coisas.) Todo mundo tem o direito de querer mais da vida. Mas desespero não.  Muro de lamentações não. A gente querer um trabalho melhor, morar na cidade dos nossos sonhos, querer se separar, querer casar, querer emagrecer, querer comprar uma casa nova, abrir um restaurante… Tudo bem. Reconhecer nossa tristeza e frustração quando as coisas não saem como a gente gostaria, tudo bem. Usar nossos sentimentos negativos como bússolas para o que a gente deseja na vida, ótimo. Mas desespero, não. Está tudo bem. Está tudo bem para quem tem saúde e a cabeça boa.  

E principalmente no que diz respeito a ter a cabeça boa, gratidão é fundamental. Não existe paz de espírito para quem não consegue olhar para a própria vida com gratidão. As circunstâncias sempre mudam, às vezes para bem, às vezes para mal. Em alguns momentos os ventos vão estar soprando a favor dos nossos objetivos e vontades e em outros momentos contra. Tudo bem. Mas se a gente não aprender a olhar para esse vai e vem, para esse ganha aqui e perde acolá com serenidade, com a sabedoria de que a natureza da vida é a impermanência, não há santo que faça o milagre.

Saí do exame agradecida. Está tudo bem comigo, pelo menos por enquanto. Do meu futuro e do futuro de todo mundo, só Deus sabe. A gente não controla nada.

Todos os meus sonhos, as minhas vontades  - inclusive as mundanas -  ainda estão aqui. Não é que eu fui acometida por um sentimento de "ah foda-se tudo, pelo menos eu tenho saúde". Mas a ideia não é uma corrida desenfrada (e desesperada) do mais, mais e mais. A ideia é evoluir, no meu ritmo e com as ferramentas que eu tenho - numa boa. Ou como dizia Lulu Santos: "como uma onda no mar". E convenhamos, no meu caso, e no caso de praticamente todas as pessoas que eu conheço, são ferramentas excelentes. Sabe por que? Porque no fundo, para mim e para quase todo mundo que eu conheço, é tudo fucking easy. O difícil tá só na nossa cabecinha ruim. 

Camila Furtado mora na Alemanha - um oásis de segurança e prosperidade, e é mãe da Maria de 9 anos e do Gael de quase 7 anos. Duas crianças saudáveis, inteligentes, e muito amorosas. Duas razões excelentes para que ela seja fucking grata. 

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