O desabafo de um pai solo: "Não fui criado para administrar uma casa"

O desabafo de um pai solo: "Não fui criado para administrar uma casa"

O casamento de Alexandre Machado, formado em Jornalismo e hoje funcionário público, durou quase 7 anos. As filhas Joana e Clara, tinham respectivamente, 2 e 7 anos. “A mãe das minhas filhas tomou a decisão de sair de casa. Até então, ela não havia trabalhado fora. Quando conseguiu o emprego, quase ao mesmo tempo decidiu sair. Ao mesmo tempo, ela se interessou por uma pessoa.”

Ele foi meu colega de faculdade e desde que nos reencontramos via Facebook, observo o paizão que ele é. “A mãe delas estava com foco em outras questões. Eu já havia decidido disputar a guarda. Não foi preciso. Ambos entendemos que eu estava mais focado e preparado, naquele momento, para ficar com elas. Além disso, entramos em acordo que não haveria restrição em termos de visitas”.

Hoje as filhas estão com 5 e 10 anos. E ele confessa que não foi fácil tomar as rédeas da situação: “Já ouvi a seguinte frase, de pai para filho: “Eu preparei você para ser homem”. Pois é, eu fui preparado para ser homem. Mas o que isso quer dizer? Bom, meu pai me deu um bom exemplo sobre ajudar em casa. O principal deles foi lavar louças para ajudar minha mãe, que trabalhou à noite, durante minha infância. Ele também preparava e levava um leite com Nescau insubstituível para os três filhos, pela manhã, na cama. Mas ele sempre me cobrou por ser um bom aluno, um homem correto. Porém, nunca tivemos uma conversa sobre o que um homem pode fazer para realmente dividir a tarefa com uma mulher em um casamento. Nunca entrou em discussão. Pra qualquer um, claro, a teoria é diferente da prática. Mas no meu caso: nunca houve a teoria.”

Ele conta que já passou muito perrengue de coisas que justamente nunca imaginou ter que fazer. “Uma das minhas maiores vitórias: ensinar minha filha a deixar a fralda e usar o vaso. Foi meu batismo de fogo”. E me explica que ficou mega orgulhoso de si mesmo quando viu que tinha conseguido. Ainda assim, pra quem pensa que ele se coloca na posição de vítima, ele faz questão de deixar claro: “Nunca me considerei vítima, não! Para mim, tratou-se sempre de que as coisas precisam ser feitas e quem está ali para fazer sou eu”.

Como qualquer responsável pelos filhos, seja o pai ou a mãe, Alexandre considera que criá-los tem que ser mesmo na base da “tentativa e do erro”. Só que ele aponta uma diferença entre pais solos e mães solos (ou mães que nem contam mesmo com os maridos): “A diferença está no fato de que homens não tem na pauta deles esse tipo de conversa, a problematização da criação de filhos. As mulheres sempre tiveram, por uma razão óbvia: elas sempre foram direcionadas à criação dos filhos, culturalmente. Por isso, sempre tiveram espaços para a troca de ideias. Seja dentro de um lar patriarcal – entre mães, filhas, avós – seja mais recentemente em blogs como o seu. Mas meus amigos falam de cerveja, bar, carros, futebol. Quando vão falar da vida privada, acabam falando dos problemas que a “ex” tem causado. No que diz respeito às minhas conversas, é raro uma troca de ideias. Uso de um subterfúgio já aprovado: grito pela minha mãe! Ou tento fazer do jeito que consigo.”

Alexandre reclama de falta de solidariedade. “Eu sei que a paternidade solo já não é rara. O que é raro é a solidariedade feminina. Acham bonitinho mas não facilitam. Já tive uma chefe que deitava elogios por eu ser um pai que criava as filhas sozinho, mas me tirou uma função e eu tive uma perda salarial num momento delicado com as meninas. Além disso, se você vai cuidar das coisas para os filhos, muitas vezes tem aquele sorriso sarcástico, meio desconfiado. Afinal, esse papo de pai sair no meio do expediente para levar filha em médico parece meio desculpa...Já encontrei solidariedade, mas não é comum.”

Apesar de parecer um bom partido, afinal um cara do bem e bom pai, ele se considera meio retraído na hora de arrumar namorada. “Gosto muito de me dedicar às minhas filhas. Sim, admito que sinto uma certa culpa de pensar em namorar e deixá-las com outra pessoa.” 

As filhas demandam ele pra tudo. E ele diz que acaba achando graça das situações que já viveu. “Uma vez, iria aparecer uma certa “lua azul”. Raríssima, romântica e aguardada. Uma “crush” combinou de ver comigo. Quando parecia que ia despontar um romance, à base de Blue Moon, para um carro, descem minhas duas filhas, minha afilhada, minha mãe e minha irmã. Nem a lua e nem a crush voltaram a aparecer.” Ele completa: "Sou como Robinson Crusoé, mas acho que até ele tinha sexta-feira" e ri. Bem-vindo ao mundo de muitas de nós, Alexandre!

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