O Diário da Minha Bisavó

O Diário da Minha Bisavó

Um envelope de cor parda, com dezenas de páginas, em folhas já amareladas, perambula comigo há mais de vinte anos. Foi uma espécie de presente de uma prima, quando me formei: “Aqui estão os escritos da nossa bisa, você, como a jornalista da família, quem sabe um dia possa fazer bom uso disso”. 

 Minha bisavó Perina, em 1970. (Arquivo de Famīlia)

Minha bisavó Perina, em 1970. (Arquivo de Famīlia)

Eu não sei porque demorei tanto tempo pra ler o que havia neste envelope. Ele se mudou comigo de seis casas e de país. Claro que como jornalista e curiosa, não tem lógica eu ter esperado tanto tempo. Mas eu acredito que tudo tem um sentido de ser e acontecer. 

Impressionante essa coisa de sangue: o meu jeito de escrever se parece muito com o jeito dela. Fiquei meio em estado de graça com isso. Me emocionei com tudo que li. As dificuldades que ela passou numa época em que mulher não tinha vez pra nada -  só para ter filhos e obedecer aos homens.

Cheguei a conhecê-la bem velhinha. Mesmo tão criança, eu percebia que ela havia plantado muito amor. Tive a mais amorosa das avós e as mais amorosas tias-avós, filhas dela. Era impressionante o cuidado que ela recebeu de todos no fim da vida. Hoje entendo que foi retribuição por tudo o que ela fez sozinha.

Minha bisavó, Perina Goulart Gonzaga, nasceu em 1897, nona filha de 11 irmãos. O pai dela, Tertuliano Goulart, meu tataravô, foi um dos primeiros jornalistas do Triângulo Mineiro (e talvez isto explique o diário todo com letras de máquina datilográfica). “Casei-me por amor.”, escreveu. E teve que brigar para isto acontecer. Teve 6 filhos, sendo que o quinto deles morreu de Escarlatina. O marido, Álvaro, faleceu aos 33 anos. Viúva com os filhos ainda pequenos, ela diz: “Fiquei na miséria”. O trecho que destaco fala da luta dela pra se manter.  Ela não teve tempo para romantizar a criação dos filhos. Isto foi depois de uma viagem dela ao Rio de Janeiro, o ano é 1932:

“O banho de civilidade que recebi nestes 3 meses me deu coragem para enfrentar as dificuldades com mais disposição a ser alguma coisa na vida. Quando cheguei de volta a Araguari, estava bem mudada. Não era aquela viuvinha sem vontade própria e sempre fazendo o que os demais achavam que eu devia fazer. Papai, com suas idéias de antiguidade achava que eu devia viver a trabalhar em casa, cuidar dos filhos, sem ter outra visão do que era ser viúva e precisava viver retraída para não dar o que falar ao “zé” povinho de cidade pequena e futriqueira.

Eu não devia conversar com homens, pois podia me interessar por algum e querer casar-me outra vez. Assim que o papai pensava e eu devia pensar também, pois seria um horror dar aos meus filhos um padrasto. Tinha que viver só para os filhos e nada mais. 

De modo que voltando do Rio, resolvi botar uma pensão e ter mais fartura em casa. Muito contra a vontade do papai fui começando nova vida. Vendi a minha máquina de costura por 520 mil réis e com este dinheiro paguei umas dívidas e com o resto comecei a nova vida. Dava marmitas e isto aprendi em São Paulo. Mais tarde foi instalado um posto de Febre Amarela em Araguari e foram médicos e Mata-Mosquitos. Com esta gente comecei a dar comida na mesa e assim acabei alugando a casa do meu cunhado Augusto que mudou-se para Goiás e ali montei uma pensão muito humilde. 

Trabalhava como não é possível descrever. Não podia morar na casa da pensão, pois o papai não achava direito. De modo que a noite estava em casa do papai e de manhã, com frio ou calor, às 6 horas já estava com o café pronto para os meus hóspedes tomarem e sairem para o trabalho. Ao meio dia o almoço na mesa e às 6 da tarde o jantar. E tudo corria bem e Deus me abençoava e o meu crédito ia aumentando. Comecei esta pensão no ano de 1933. Fui progredindo….

Em 1934 ja estava animada e com bastante hóspedes e tudo corria bem. Mas acontece que meu cunhado vendeu a casa e eu teria que me mudar. Começou a luta novamente; para onde eu iria com os meus hóspedes. O único meio era aumentar uns quartos na casa de papai e transferir a pensão para lá. E assim fiz. Quando tudo estava pronto e que mudamos os meus hóspedes, quiseram por o nome de pensão “Rockfeller”. Imaginem uma casa antiga, muito feia, com um nome tão importante.

Mas, de um momento para o outro o posto da Febre Amarela foi transferido para Uberaba. Fiquei com dívidas e pensão vasia. Não desanimei. Resolvi me enterrar em mais dívidas e fazer propaganda da Pensão. Fiz anúncio no “Albor”, mandei fazer uns cartões com o nome “Rockfeller”. Paguei imposto. Legalisei com a Prefeitura e toquei pra frente.

 Minha bisavó e eu, em 1973, (Arquivo de Família)

Minha bisavó e eu, em 1973, (Arquivo de Família)

Neste meio tempo me aconselharam para comprar o Hotel Central que estava à venda. Tomei as minhas decisões sosinha e convidei meu irmão Ramiro a me ajudar como gerente no Hotel. Arranjei 6 mil cruzeiros emprestados e feichei o negócio por 30 mil, dando 8 de entrada e um mil mensal. As dívidas eram grandes. Precisava pagá-las e era com a própria renda de lá e o que o Hotel produzia fui amortisando as dívidas. No fim de um ano, depois de uma luta insana e um controle enorme, estava com as dīvidas pagas e o Hotel numa boa situação. Como proprietária que era, tudo ali dentro corria sob as minhas vistas.”

Minha bisavó, com a morte do pai, vendeu o hotel e a pensão em Araguari, e se mudou para o Rio de Janeiro em 1940, onde também teve uma pensão, a “Correia Dutra”. Se mudou para Brasília em 1963, sendo cuidada pelos filhos até sua morte em 1982.

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