Por que eu quero que meus filhos aprendam a meditar?

Por que eu quero que meus filhos aprendam a meditar?

Há dois meses minha filha Maria, de 9 anos, fez seu primeiro curso de meditação. Era um curso de um dia inteiro para aproximadamente 30 crianças e pré-adolescentes entre 8 e 12 anos. O curso ensinava a técnica de meditação Anapana, que nada mais é do que observar o entra e sai da respiração natural.

A professora começou explicando um pouco da história desta técnica e por que aprender a meditar é uma coisa legal:  “Sabe quando você briga e diz coisas feias para alguém, se comporta de uma maneira que não queria se comportar, ou erra algo numa prova que na verdade você sabia fazer? Então nestes momentos quem está mandando não é você, mas a sua mente. É como se vocês estivessem sentados no volante de um carro, mas quem está dirigindo não é você. Aqui vocês vão aprender a “dirigir o carro”, a controlar a sua mente para que ela faça o que você quer. Isso é tão importante como aprender tudo que você aprende na escola. Porque quando você aprender a controlar sua mente, você vai conseguir aprender e fazer tudo que quiser com muito mais facilidade.”

Dito isso, 30 crianças sentadas fecharam os olhinhos e começaram a prestar atenção na respiração. As crianças meditaram em blocos de 15 a 30 (!!!!) minutos e ao fim de cada bloco a professora conversava com eles. Como foi? É fácil ou difícil prestar atenção na respiração? O que você sentiu? E assim, passo a passo, ela foi ensinando a técnica para eles e a cada coisa nova que ela introduzia eles praticavam mais um pouquinho. Entre os blocos de meditação, as crianças faziam pausa para brincar e comer. Tudo organizado por adultos meditadores voluntários, como eu. 

Minha filha não teve muita dificuldade para se concentrar. Ela é por natureza uma criança equilibrada e focada. E tampouco ela era a única fofura compenetrada por ali. Mas é claro que nem todas as crianças acharam fácil. Algumas crianças estavam inquietas, outras estavam de olhos abertos apenas esperando o gongo tocar para terminar aquela torturinha silenciosa, outras estava super entediados. Tudo válido. Afinal, como eu mesma aprendi recentemente, meditar não é apenas os momentos transcendentais de concentração absoluta. Meditar também é o exercício, a tentativa de controlar sua mente, mesmo quando ela está doidona (história da minha vida). 

As crianças que estavam tendo muita dificuldade tinham atenção especial dos voluntários. Nada era obrigatório ou imposto, tudo explicado com amor e paciência.

Desde que participou do curso Maria meditou duas vezes apenas. Uma vez comigo e uma vez sozinha por iniciativa própria. Na semana passada,  escutei ela dizendo para o Gael, seu irmão de 7 anos, que antes da prova de matemática ia se esconder no banheiro e fazer Anapana por dois minutos. Fingi que não ouvi, mas senti uma alegria tremenda de imaginar minha filha convocando seus super poderes no banheiro da escola. 

Se ela vai ou não seguir meditando, se ela vai ter interesse em mais um curso, não sei. A única coisa que eu sei é que é meu papel de mãe, tentar passar para os meus os filhos o melhor que eu sei. Lembra quando nossos pais diziam para a gente aprender línguas, ir fazer intercâmbio no exterior, fazer esporte, ir bem na escola… Tudo isso é lugar comum agora. Claro que estas coisas são importantes, e meus filhos têm, diferente de muitas outras crianças pelo mundo, todas essas possibilidades ao seu alcance com facilidade. O que eu estou tentando ensinar para a Maria agora vai além do “pacote básico”: controlar a mente, se livrar de hábitos mentais negativos, desenvolver boas qualidades mentais. Eu sinceramente acredito que isso sim vai definir o futuro dela mais do que qualquer outra coisa. 

Neste mundo louco do caramba, a nossa medida mais fundamental de sucesso deveria ser a paz interior. Maria sonha em ser presidente do Brasil um dia. Gael sonha em ser jogador de futebol profissional. Tudo válido. Por mim eles podem ser qualquer coisa que eles quiserem, contando que eles sejam pessoas boas e tenham paz dentro de si - paz verdadeira porque esse é o segredo da felicidade. E não existe paz em uma mente descontrolada.

Então respondendo a pergunta inicial: porque que quero que meus filhos aprendam a meditar? Porque eu quero que eles sejam felizes. Presidentes e jogadores de futebol felizes. Afinal o que é mais há por aí é gente muito bem sucedida profissionalmente cheia de merda na cabeça. Com meus filhos não, obrigada.

Camila Furtado mora na Alemanha é mãe da Maria de 9 anos e do Gael de 7 anos. Eles não comentam na escola, mas acham a coisa mais normal do mundo ter uma mãe, uma tia e um tio que todos os dias dão um break na vida para meditar. 

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