Torcer ou não torcer para o Brasil?

Torcer ou não torcer para o Brasil?

Ai que dureza… desde que começou a Copa do Mundo que escuto de amigos e conhecidos manifestações ambíguas sobre a vontade se envolver nesta Copa (Fifa corrupta). Mais além, da vontade de se envolver nesta Copa carissíma (provavelmente corrupta) torcendo para este país Brasil (corrupto), com esta CBF (corrupta).

É duro mesmo. E confesso que eu mesmo adorando Copa do Mundo (quer desculpa melhor para tomar uma cerveja do que assistir Rússia e Arábia Saudita - imperdível!), e vindo de uma família onde todo mundo enlouquece com futebol também me senti mal. É certo? É certo torcer para o Brasil, para estes jogadores semi-deuses organizados por esta CBF que é praticamente a reencarnação do mal em forma de associação esportiva? É certo participar do circo enquanto tanta coisa ruim está acontecendo no Brasil e no mundo?

Moro na Alemanha e não se direito como anda o clima Copa no Brasil. Mas por aqui já escutei de muitos brasileiros que este ano estão torcendo para Alemanha apenas, para o Brasil não. Posso entender a mágoa com o Brasil. Claro que sim. Na semana passada um menino de 14 anos levou um tiro na favela da Maré com uniforme da escola. A última coisa que ele disse para mãe antes de morrer foi: “Mãe, eles não viram que eu estava com uniforme da escola?”  Meu Deus, que pode ser mais triste que isso? E enquanto isso estamos aqui, pintando a carinha de verde e amarelo.

Sei que tá foda. Mas não consigo não torcer para o Brasil. Não consigo não amar o Brasil. E me dá um enorme tristeza ver as pessoas desistindo. Tenho tantos amigos brasileiros expatriados que se referem ao Brasil como se esse não fosse mais o país deles, como se eles não tivessem nascido lá, como se suas famílias não estivesse ainda lá, como se fosse possível renegar sua origem - praticamente fingir que não é com você. Me dói. Eu entendo, principalmente quando estes comentários vem de pessoas que deram um mega upgrade na vida quando mudaram de país.  Mas não consigo deixar de me ressentir. Outro dia uma amiga brasileira me disse: “Nossa mas depois de 12 anos na Alemanha você é ainda tão ligada em musica brasileira?” Eu quase nem entendi o comentário. Como assim? Eu sempre gostei de música brasileira, nossa musica é incrível, reverenciada no mundo inteiro, é parte do que nós somos - como assim eu vou me “desligar” de música brasileira? Não, nunca.

Sei que tá foda, gente. Mas não vamos desistir do Brasil. O Brasil não são só os corruptos, os loucos, os malvados, os extremistas religiosos, os preconceituosos. O Brasil é a gente também. Um monte de gente legal, é eu, você, sua mãe, seu pai, seus amigos, são as crianças uniformizadas na favela. É a natureza que insiste em resistir mesmo sendo tão maltratada, são as pessoas bem humoradas, os batalhadores, é a música, o samba, o sol, o céu azul, o mar interminável. Se a gente desiste aí que vão fazer do nosso país o que quiserem.

Seja lá onde você estiver pelo mundo, não desista do Brasil. Arrume um jeito de lutar pelo que você acha que é certo, reclame, proteste, vote consciente, se informe, assine abaixo assinado, xingue a Fifa, faça o que você puder. Faça mesmo, sem hipocrisia. Mas por favor não deixe de se alegrar quando a seleção marcar um gol. Primeiro, porque não se alegrar não irá mudar absolutamente nada no que está acontecendo no Brasil. Nada mais do que uma atitude passiva de quem quer mostrar sua revolta sem mexer um dedinho. E depois porque convenhamos: Há poucas coisas mais emocionante do que um golasso do Brasil. Quanto a isso, o mundo inteiro está de acordo. 

 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe do Maria de 9 anos e do Gael de 7 anos. Ambos torcedores fanáticos do Brasil e da Alemanha cujos corações não estão preparados para ver seus times se enfrentando já nas oitavas de final. 

 

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