A melhor pior mãe do mundo

A melhor pior mãe do mundo

Pense no azar que é ter medo de altura e ter nascido filho de uma aventureira. Esse é a vida, o Nextel do meu caçula. Quando nasceu, Deus deve ter dito: sobreviva a essa louca e nada te derrubará. Pois nestas férias ele viveu sua maior provação. O plano era ficar num hotel incrível, numa praia paradisíaca do México, onde meu máximo esforço seria levantar a mão para pedir mojitos. Pernas pro ar, sol, muitos beijinhos e agarros. Teve tudo isso. Mas... pesquisando os arredores, fui me deparando com uma verdadeira disneilândia para aventureiros. Incluindo um parque de aventuras com um circuito de quatorze tirolesas. Quatorze, migas. Quem consegue ficar de boas na espreguiçadeira, quando se nasce com o furículo cheio de formigas?

A mais velha topou na hora. Mas o mais novo... Como viajo sozinha com os dois, a regra é clara: se um não vai, ninguém mais pode ir. Não sou de desistir mole. Então, foram semanas de conversas e preparações para que ele topasse ir com a gente. Liguei pro parque e, com meu portunhol do curso Joel Santana de idiomas, me certifiquei que ele poderia ir nas tirolesas agarrado comigo – condição justíssima imposta por ele. Mas na hora H, não foi bem assim. Beijo na mãe do cabrón que me atendeu. 

Dava pra supor pelas fotos do site que o bagulho era pra quem curte um “frio no piu piu”, como ele diz. Mas... Pataquepalala! Ao vivo as tirolesas eram muito maiores do que pareciam. Pense numa floresta de árvores bem altas. Finja que você é um pássaro e consegue estar acima da copa das árvores. Dê uma olhada pro alto e imagine um prédio de muitos andares ACIMA da copa das árvores. Agora você começa a entender do que eu estou falando. As tirolesas são ligadas por torres erguidas no meio da floresta, com anos luz de distância entre uma e outra. Mana, até eu fiquei com o coração na boca. Pense no bichinho de 8 anos! 

Mas a gente já tinha chegado até ali e o importante era vencer o medo e tal... Tá, confesso: a verdade é que eu tava LOUCA pra pular. E o ingresso era caro pra dedéu. E em doletas! Não podíamos desistir! Disse pra ele agarrar em mim, que ia dar tudo certo. A mais difícil seria a primeira. Depois dela, tudo ficaria mais fácil. Só que não. Na primeira tirolesa ele até pôde ir comigo. Travado. Agarrado no meu pescoço. Mas, beleza, deu tudo certo. Viu, filho? Que delícia? Curtiu? Não. Quero descer. E aí vem a surpresinha número um. Uma vez que você começa o circuito, não tem como parar mais. As torres estão, literalmente, no meio da floresta. Ativar o poder da lábia de novo e vambora! Ele foi adiante. Não tinha outro jeito.

Surpresinha dois: depois da terceira tirolesa, ele não pôde mais ir comigo. Por uma questão de peso, equilíbrio, vento, sei lá mais o quê, teve que ir com a irmã. Mais conversa, convence daqui e dali, lá foi nosso herói de novo. Com o passar das tirolesas, ele foi ficando mais relaxado. Começou até a arriscar uns “uhuuu”, finalmente estava se divertindo! Ufa! Mas... Na última do primeiro circuito, mais uma surpresinha: nessa ele teria que ir sozinho. Beso em la madre de lo malparido que me atendió! De quantas surpresinhas é feito um circuito? Bla bla bla, vencer o medo... e lá foi o meu bravo. Ponto para ele! Cinquenta quilos a menos de culpa pra mim. Terminou tão excitado, que quis enfrentar o segundo circuito por vontade própria. 

Vencemos 12 das 14 tirolesas. Sobrevoamos até um pântano com jacarés. Jogo ganho. O que mais poderia nos derrubar? Weeee are the champions, my frieeeeends! Hummm... ainda não. De toda tirolesa que a gente descia, dava pra avistar lá longe uma torre que era a mais alta de todas. Veja bem, todas eram muito altas. Mas as outras eram a Tatá Werneck e essa era a Ana Hickmann, saca? Ficamos na dúvida. Será que aquela faz parte do circuito? Não, não dá pra ser, impossível. Deve ser só enfeite. Há! Sim, amigas-mães-caminhoneiras. Não só fazia parte, como era obrigatório passar por ela. E foi nessa Everest das tirolesas que o bicho pegou.

Subindo a interminável ladeira em forma de caracol que dava no topo, meu filho cometeu o pior erro que alguém que tem medo de altura pode cometer: olhou para baixo. O frio no piu piu subiu e congelou o cérebro. Não deu outra: teve uma crise de choro. E travou. Aquilo já era demais pra ele. Queria desistir, era mais que legítimo! Mas... não dava, lembra? Cada pessoa que passava por nós via na minha testa uma tatuagem com os dizeres: “pior mãe do mundo”. O prêmio era meu. “I am the champioooon, my frieeeeds!” Que espécie de mãe coloca o filho tão pequeno numa roubada daquelas? 

Um funcionário do parque surgiu, graças a Diós! Algum problema? Meu pequeno, em alto e bom som e soluços: sim! Eu tenho medo de altura! Quase me joguei lá de cima, no pântano dos jacarés. Era o que eu merecia. Nosso anjo ofereceu a solução: um profissional podia descer com a mais velha. Meu bebê poderia novamente descer comigo. E, assim, ele topou. No meu colo, meu pequeno coala se sentiu novamente seguro para enfrentar a pior prova contra o seu pior medo. Pensando bem, até que eu não devia ser uma mãe tão horrenda assim. Se era capaz de transmitir essa segurança a ele, alguma coisa eu devia ter feito direito. Ao chegar lá em cima, quem queria chorar era eu. Minha perna tremia. As formiguinhas do furículo, nessa hora, sumiram todas, os glúteos mais contraídos que o da Gracyanne. Deu muito medo. Mas a gente se agarrou um no outro e... foi! Ufaaaaaaa. Acabou! 

Não. A melhor surpresinha ainda estava por vir. A recompensa final, para tamanha coragem. A última tirolesa terminava na água, cruzando uma linda cachoeira, dentro de uma caverna. Ao vê-la, os olhinhos dele brilharam. E ele fez rapidamente todo o raciocínio: se eu tivesse desistido, jamais teria conhecido isso. O famoso “quem não morre, não vê Deus”. Bicha, pense. Cruzar uma cachoeira voando! Foi uma das mais incríveis e lindas experiências de nossas vidas. Mas nada foi mais bonito que ver meu filho gritando de emoção, depois de ter conseguido completar o circuito: eu não tenho mais medo de alturaaaaaa! Nesse minuto, meu pequeno ficou maior que a maior das tirolesas. Chupa, Ana Hickmann!

Nos dias que se seguiram, ele saltou de penhascos de 5 metros de altura em rios profundos. Atravessou cavernas com morcegos, nadando em temperaturas congelantes, onde até eu senti frio no piu piu, para ver uma água de um azul que dói os olhos. Nadou ao lado de peixes do tamanho dele. (Tá, nesse dia quase fomos parar em Miami, levados por uma correnteza. Tivemos que ser resgatados de boias por um mergulhador profissional. Mas isso é assunto para outro post. Ou a gente abafa...). Enfim, temos mais um aventureiro na família. E ele está sobrevivendo a mim. Se essa é a missão dele, podemos dizer que está cumprindo com louvor.

Deve ter um jeito mais suave de fazer um filho enfrentar seus medos. Certamente há medos que não vamos superar nunca. (Me joga nos jacarés, mas não me faça enfrentar uma barata!) Essa foi a maneira meio desajeitada e bruta (minha cara) que eu encontrei. E ela acabou dando certo. E agora eu tenho um pequeno grande ser humaninho em casa que provou o gostinho fantástico de se superar. Se eu tivesse que deixar apenas uma lição pra ele nessa vida, acho que eu escolheria exatamente essa. Se der medo, vai com medo mesmo, meu filho. E, não duvide, a sua mãe é uma doida. Mas ela estará SEMPRE aqui pra você se agarrar.

Claudia Gomes é mãe de Pilar, de 12 anos, e Vicente, 8 anos. Separada, mora no Rio de Janeiro. Para ver mais textos dela, visite a página no Facebook. Ela está de volta depois de meses super ocupada como roteirista da novela "Deus Salve o Rei", da Rede Globo. Que sorte a nossa ter o humor dela compartilhado por aqui!

 

 

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