Você aceitaria a interferência do Estado no seu direito de ir e vir com seus filhos?

Você aceitaria a interferência do Estado no seu direito de ir e vir com seus filhos?

“Quem escolhe o que é melhor para o meu filho sou eu e ninguém tem nada a ver com isso!”. Calma que na Alemanha, por exemplo, a banda não toca bem assim. Saúde, moradia, segurança e educação são asseguradas pelo governo e e consequentemente controladas também pelo Estado.

A Camila, minha parceira do blog, mora em Colônia, uma cidade ao norte do país. Os filhos dela, Maria, de 10 anos, e Gael, de 7, estudam numa escola pública. Depois que eles entraram na escola, ficou difícil irem ao Brasil para as festas de fim de ano. As crianças só tem uma semaninha de recesso e convenhamos que para atravessar o Atlântico é sempre melhor um período maior e as férias mais longas são no meio do ano. Mas aí que vem a história: a criança alemã não pode faltar aula.

A falta só é aceita em situações específicas como ficar doente ou a morte de alguém. Ou seja, tem que ser um motivo muito sério. E isso tem que ser devidamente informado à escola pelos responsáveis. De acordo com a direção de cada escola, existe o prazo certo para os pais apresentarem obrigatoriamente um atestado médico em caso de doença do filho.

Se você, por exemplo, quiser fazer um programinha num fim de semana e pensa assim: “Ah, vamos emendar com a sexta-feira” ou “Puxa, os primos estão nos visitando, quem sabe eu deixo meus filhos uns diazinhos sem aula pra curtir “. Isso até pode acontecer, mas então prepare o bolso.

A multa por simplesmente deixar seu filho faltar aula sem a devida permissão da escola gira em torno de 100 euros por dia (o valor pode variar dependendo da região no país). Imagina: uma semana de bobeira com dois filhos e mil (!!!) euros de multa. 

E mais: se você quiser sair da Alemanha com as crianças de avião em período escolar, esquece. Na hora do embarque não vai ter santo que resolva, nem adianta pensar em pagar a tal multa. A polícia te manda de volta pra casa com os filhos porque eles só podem viajar quando estiverem de férias. Aconteceu com uma amiga da Camila. E olha que no caso dela, o último dia de escola antes das férias era uma sexta-feira e ela, desavisada, queria viajar justamente nessa sexta pela manhã. Ela e o filho não embarcaram de jeito nenhum.

A Camila, como boa alemã que virou, sempre cumpriu as regras direitinho e se conforma que Natal com a família do Brasil, só com eles vindo pra Alemanha. Mas esse ano vai ser diferente. A avó da Camila faz 90 anos e haverá uma grande festa, reunindo todos os parentes possíveis. Pessoas que ainda nem conhecem as crianças. Então ela escreveu uma carta para a direção da escola explicando o quanto era importante estarem todos juntos nesta ocasião. E explicou ainda que, como as professoras podem confirmar, as crianças têm uma ligação forte com o Brasil e e por causa da distância não é fácil manter isso.

A decisão da escola é sempre uma incógnita pois eles bem podem desconsiderar a relevância da ausência e negarem o pedido. E no caso dos pais ignorarem a negativa, o caso é enviado às autoridades educacionais. Mas, felizmente, a carta chegou com a boa notícia: autorizando as faltas escolares de Maria e Gael, especificamente por 5 (!) dias. A autorização, guardada a sete chaves até o fim do ano, precisa ser apresentada no aeroporto no dia do embarque para evitar qualquer confusão.

E aí? Absurda a intromissão do Estado nas decisões familiares? Ponto para os alemães já que evasão escolar não existe? 

Deixo para vocês avaliarem.

Fabiana Santos é jornalista, mora em Washington-DC com os dois filhos e o marido, e esteve em Colônia visitando a Camila nessas férias.

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