Meus filhos bilíngues falam “mal” a língua portuguesa ou são as más línguas?

Meus filhos bilíngues falam “mal” a língua portuguesa ou são as más línguas?

A língua de herança – no nosso caso, o português – é a língua falada por milhares de imigrantes e seus descendentes nos diferentes países para onde imigraram e/ou onde vivem. É a língua que os pais e os avós falam em família, com filhos e netos, numa tentativa de transmissão de algo muito valioso para unir a família imigrante. 

A língua de herança convive lado a lado com outras línguas no seio da família. Por isso, ela nunca existe isolada na vida dos imigrantes. O português que existe “lá fora” não é uma ilha, assim como os portugueses (ou brasileiros) não vivem isolados de outras realidades linguísticas. Ora, reconhecer isto implica entender que as crianças que aprendem português “lá fora” não “falam mal o português”. Estas crianças falam um português que adquiriram num ambiente em que a língua portuguesa é minoritária e em que a aprendizagem da língua do país de residência é primordial, em termos de socialização e de escolarização. 

Quando os meus filhos me pedem, em pleno verão e em Aveiro, cidade portuguesa, “mamã, podes comprar-me um Eis?” (palavra alemã para “sorvete”), não estão falando mal português: estão falando com os elementos da língua que “está mais à mão”. Talvez porque a palavra que queriam dizer tenha se escondido “debaixo da língua”. Talvez porque saibam que a mãe vai compreender. E, afinal, a lei do menor esforço seja uma regra tanto para monolíngues como para bilíngues! 

É aqui que entram as “más línguas”, ou seja, gente que diz: “os seus filhos ainda não falam direito o português” ou “mais uns anos e vão falar português” ou “você devia fingir que não os entende quando falam em alemão”. Estes são alguns dos comentários que costumo ouvir. Eu e milhões de outros membros de famílias na diáspora, acabamos duvidando das nossas capacidades de educadores linguísticos. 

Mas eu insisto que em situações assim basta uma explicação complementar, sem precisar fazer alarde. Se meus filhos dizem uma palavra em outra língua, eu repito a frase colocando a palavra em português e continuo a conversa. Aproveito a oportunidade, mas sem fazer uma cena que os deixem envergonhados ou com a sensação de não saberem falar português.

Convém assinalar que uma criança bilíngue – não é o mesmo que duas monolíngues: as línguas não se separam de forma estanque nos cérebros, sendo que há muitas ligações entre elas e a forma como são ativadas depende muito do contexto (situação de comunicação, assunto e pessoas envolvidas na conversa, por exemplo). 

Depois, é preciso reconhecer que as línguas desenvolveram diferentes formas de codificar as suas realidades e que a tradução de uma língua para outra pode, por vezes, ser difícil, senão impossível. Ser bilingue – ou plurilíngue – é possuir diferentes filtros para compreender, interpretar e se referir à realidade. 

No caso das línguas de herança, a expressão e compreensão oral desenvolvem-se muito mais rápido do que o aprendizado de leitura e escrita dessas línguas. Porque as crianças, sobretudo da segunda geração, são alfabetizadas na língua do país de acolhimento. 

Finalmente, destaco o estereótipo que mais escuto: que mãe e pai devem falar exclusivamente a sua língua, no caso de casais mistos, para as crianças não misturarem as línguas. Mas, se queremos criar crianças bilíngues, que se sintam bem em várias línguas, não devemos dar o exemplo do bilinguismo? Devemos fingir ser monolíngues? 

Chamo ainda a atenção para os trabalhos da investigadora Cristina Flores, da Universidade do Minho, que comprovou, através da análise de diferentes casos, que as habilidades linguísticas de crianças do idioma como língua de herança se desenvolvem mais tarde do que as de falantes monolíngues no país de origem – mas sim, elas vão conseguir falar! Porque, afinal, é muito injusto comparar a habilidade para o português de uma criança monolíngue, que aprendeu a língua dentro do próprio país e uma criança bilíngue que está “lá fora”. 

O segredo é NUNCA DESISTIR e continuar a proporcionar condições de aprendizagem aos filhos. Mesmo quando enfrentamos a resistência deles. Não é raro eu ouvir dos meus filhos: “não falo português hoje porque estou müde*!”. Com sotaque e tudo!  

*müde: palavra em alemão que significa “cansado”.

Sílvia Melo-Pfeifer é portuguesa, tem 2 filhos e mora na Alemanha. Trabalha na área de Português Língua de Herança (PLH). É professora da Faculdade de Educação, na área de Didática de Ensino de Línguas Românicas, na Universidade de Hamburgo, e colabora com o  Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), na Universidade de Aveiro. O artigo original foi publicado no jornal “Diário de Aveiro”.

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