Consumismo X adolescentes

Consumismo X adolescentes

Quando eu era adolescente, o supra-sumo da ostentação, entre eu e os meus colegas, era ter uma mochila nova da “Company” para começar o ano escolar. Ok… deve ter mãe por aqui que nem sabe que loja é essa (será que estou velha?). Voltando ao ponto: a preocupação de muitos adolescentes com marca de roupa, loja de grife, não é uma novidade. Mas eu tenho a sensação de que a geração (da qual o meu filho faz parte) está perdendo um pouco (na verdade, muito) a noção da realidade. 

As coisas que muitos adolescentes desejam não são caras hoje em dia… são caríssimas. O que dizer, por exemplo, de um casaco de moletom de 3 mil dólares ou uma camiseta branca por 2 mil dólares? O esquema é tão louco que estes preços se referem às roupas que tem apenas o nome da marca em destaque. As outras camisetas, sem ostentar o nome da marca, podem girar em torno de 350 dólares (como se isso fosse razoável).  A maioria dessas marcas que “fazem a cabeça” dos jovens diz que produz “moda de rua” (streetwear), fazendo supor que são roupas para usar no dia a dia (!).

Ok, você deve estar pensando: ué, um preço assim é tão surreal que basta dizer “não temos dinheiro pra isso” e está tudo resolvido. Assunto encerrado. Sim, porque é exatamente o que nós dizemos aqui em casa.

Mas existe um forma covarde dessas marcas atuarem na cabeça dos adolescentes hoje em dia. São youtubers, cantores de rap, jogadores de futebol, artistas, postando suas fotos, usando esse bando de “mimos” extravagantes e subliminarmente dizendo: “Se você não adquirir estas coisas, você não vai ser feliz como nós somos”. Eles aparecem nas redes sociais e ajudam a tornar este tipo de marcas o sonho de consumo de seus seguidores, no caso, os adolescentes. 

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Numa dessas lojas, que segue essa vibe de preços estratosféricos e funciona no centro de Amsterdam, um aviso na porta diz (em inglês): “Pessoas básicas não são bem-vindas. Nós só vendemos produtos para quem está na moda”. Não dá pra pensar que isto é apenas uma piadinha. Esta é uma forma de atingir na mosca a auto-estima dos adolescentes (o público alvo). Dentro da loja, por exemplo, um chinelo vem com a mensagem escrita (em inglês): “Faça dinheiro, não amigos”. Só uma brincadeirinha? Mais uma com uma mensagem dirigida especificamente para a cabeça em formação dos nossos filhos e eu pergunto: “O que é ou vai ser importante nessa vida para quem curte slogans assim?”

Meu filho me contou que um colega da escola não era de ter muitos amigos e que de uns tempos para cá, o menino começou a se vestir (só!) com roupas de uma das marcas que os adolescentes tanto almejam. A partir disso, ele se tornou o “menino popular da escola”. Pra mim isto serve para refletir. 

Ah… mãe. Deixa de ser careta e considera isso tudo razoável. “Faz parte” da adolescência de muita gente. Não dá. Se eu tenho um filho adolescente, sou a parte pensante e responsável. Não dá pra comprar, nem muito menos achar “bacaninha”. E assim eu tento criar oportunidades para dialogar sobre isso. Ficando atenta para exemplificar que a realidade do mundo não é a que está nos Instagrams da vida. Apontar o que é de fato importante e o que é completamente dispensável pra ser feliz. Fácil? De jeito nenhum. Vai você competir com um “influencer” de adolescentes do Youtube! Mas a gente não pode desistir! 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC e é mãe de Alice, 7 anos, e Felipe, 13 anos. Ela também acha que "exemplo vem de casa" e como não é ligada em grife, acha que isso pode ser uma boa influência para o filho entender que "menos é mais". 

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