Uma história sobre autismo: a comunicação não verbal

Uma história sobre autismo: a comunicação não verbal

Até quase os dois anos, a filha de Santiago já falava algumas palavrinhas. Chamava inclusive por “papai” e “mamãe”. Depois que a irmã nasceu, Mora parou de falar. A família chegou a pensar que poderia ser uma reação de ciúmes do bebê. Mas ela também parou de fazer contato visual, abria e fechava um livrinho repetindo isso inúmeras vezes e preferia se isolar. A mãe é pediatra, Santiago é clínico geral. Com ajuda de um amigo especialista em desenvolvimento infantil, eles acharam que o comportamento de Mora precisava ser investigado.

O diagnóstico de autismo veio aos 2 anos e 3 meses de idade. “Foi difícil ouvir. Eu e minha esposa tivemos que passar por um luto. Mas não me interprete mal. Se tratou de um luto quanto às expectativas que colocamos em relação a um filho. Precisamos de um tempo de ajuste do impacto da notícia”, diz Santiago e completa: “O mais difícil é pensar no futuro. Saber que ela vai precisar de ajuda pra sempre”.

“Descobrimos que há muitas opções de tratamento para autismo”, explica o pai. Eles optaram pela terapia cognitiva comportamental. Os pais foram também atrás de cursos sobre autismo e buscaram famílias na mesma situação. “É muito importante conhecer outras pessoas que passam por isso pra gente não se sentir tão sozinho nessa. Nós acabamos fazendo amizade com muitos pais porque compreendemos uns aos outros.”

Mora, como outros autistas, gosta de repetições e quando a rotina muda, ela se incomoda. “Quando vamos a casa de alguém temos que levar o que ela gosta”, diz o pai. Ele também acha primordial ir descobrindo o que agrada a filha, já que os gostos dela são restritos: “Quando pequena ela se encantou por um balanço no parque. Não tivemos dúvida, retiramos a garagem de casa para fazer um parquinho com balanço. A próxima aquisição da família será uma banheira de hidromassagem, já que ela adora água e bolhas de sabão”.

Santiago diz que foi muito importante aprender com a equipe terapêutica que a irmã mais nova, Luz, também precisa de atenção e momentos só dela com os pais. “Ela chegou a ter muito ciúmes e isso precisou ser trabalhado. Hoje em dia temos muito orgulho dela, pois muitas vezes ela entende a irmã melhor do que nós. Outra dia Mora estava chorando e Luz explicou: papai, esta propaganda na TV deixa a Mora triste”.

Um dos vários desafios da família foi a filha ter continuado sem falar. “Era muita angústia ver que ela não falava”. Mais uma vez o suporte da equipe terapêutica foi importante para eles começarem uma nova história familiar: a comunicação não verbal.

 Mora e seu álbum de imagens. (Arquivo da Família)

Mora e seu álbum de imagens. (Arquivo da Família)

Foi assim que eles conheceram o método PECs (Picture Exchange Comunication System), que usa imagens (sejam elas fotos ou desenhos) para auxiliar que Mora expresse o que quer. Os pictogramas estão todos num álbum que a família carrega para todo o lado. Toda vez que Mora precisa de algo, ela tira a figura do álbum e mostra para o pai ou a mãe. “Não basta apenas apontar, ela tem que ir lá e pegar a figura correspondente ao que ela quer. E claro, com o passar dos anos, as necessidades aumentam e o número de figuras também”, explica o pai.

Santiago conta que chega a ser engraçado algumas situações. Mora faz birra, discutindo com eles por meio das imagens: “Se ela precisa ir para a escola, falamos e mostramos a figura da escola, mas algumas vezes ela reclama colocando em cima a figura do que ela quer, que é ficar vendo TV, por exemplo”. Sobre a ideia do método atrapalhar um possível aprendizado da fala, o pai diz que já foi demonstrado por estudos que quanto mais pictogramas a criança tiver contato, ouvindo a família falar o nome das coisas, mais chances existem dela vir a falar. 

Existem casos de crianças autistas que em algum momento começam a falar. Outras continuam sem pronunciar palavras. “É um desejo, claro, mas não podemos viver com esta angústia. Descobrimos que não são apenas as figuras que nos colocam em contato com ela. Um abraço, um beijo, um olhar, um gesto dela, um pequeno sorriso ou cara insatisfeita nos fazem entendê-la e também fazem parte da nossa comunicação”, se emociona o pai.

 

Santiago Hasdeu, a esposa Sonia e as filhas Mora, de 9 anos, e Luz, de 7 anos, moram em Neuquén, Argentina. Ele espera que seu relato possa ajudar as famílias com filho autista e outras tantas a compreenderem melhor uma criança autista. 

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