Por que a comida nas escolas públicas americanas é tão ruim?

Por que a comida nas escolas públicas americanas é tão ruim?

Em 2010, o presidente Barack Obama assinou a Lei da Criança Saudável e Livre de Fome. O principal objetivo da lei era elevar os padrões nutricionais mínimos para almoços nas escolas públicas, como parte do Programa Nacional de Almoço Escolar.

Michelle Obama também tinha, enquanto primeira dama, um site sobre saúde, alertava sobre obesidade e diabetes, fazia campanhas. Ela criou um movimento, mas as coisas não deslancharam como era (e ainda é!) preciso. Houve até crīticas na imprensa de que a comida da nova lei era “sem graça”. Imagina, gente achando absurdo incentivar comida saudável para criança. Não foi à toa que no ano passado, o Trump voltou com o leite achocolatado e o pão branco para as escolas. Triste derrota para as tentativas do casal Obama.

Eu não posso falar sobre todas as escolas públicas dos Estados Unidos (ainda que eu escute reclamações de mães em outros estados americanos), mas eu posso falar das escolas que meus filhos estudam. Eu já almocei na Middle School (escola de ensino médio) do meu filho e jamais vou me esquecer do “hamburguer de frango”. Uma coisa horrorosa com gosto de isopor. Eu não consegui comer. As outras opções eram: nuggets, pizza, hamburguer, tacos. Tinha umas saladas pouco atraentes também. A mesma coisa acontece na escola de ensino elementar da minha filha. E olha que são escolas públicas consideradas de excelência no estado de Maryland.

Muitas crianças que vão de ônibus e chegam cedo na escola, também tomam café da manhã por lá: um cardápio cheio de carboidrato e açúcar e pobre em frutas. Geralmente com opção de maçã ou banana que obviamente a criança acaba deixando de lado para comer algum bolinho açucarado.

Uma amiga brasileira, Adelia Azeredo, que também mora na minha região, ficou intrigada com um cardápio que tinha laranja com casca. “Jura que querem incentivar a criança a comer fruta com uma laranja desse jeito? É claro que ela vai para o lixo, sendo o desperdício um outro problema”, comenta Adelia. Itens saudáveis na bandeja para as crianças é obviamente algo essencial, mas é preciso que elas realmente comam ou sejam incentivadas a comer, né?

Muita gente aponta que o lobby das indústrias de alimento (principalmente as que fabricam todas as gororobas vendidas nas escolas) é uma barreira praticamente intransponível para derrubar o cardápio que ainda persiste. Mas tem mais caroço neste angu (trocadilho infame de uma brasileira): a questão passa pela cultura das famílias americanas. Em primeiro lugar, muitas comem junk food regularmente em casa, porque é mais fácil, porque é mais barato. Sendo assim, estes pais não vão se preocupar nem protestar sobre o que seus filhos estão comendo na escola. 

O outro ponto que também é cultural diz respeito a achar que só dá pra fazer comida saudável se gastar muito tempo na cozinha e tempo ninguém tem por aqui. Afinal, o único dia do ano que é sagrado parar e cozinhar é o dia do Thanksgiving - um feriado nacional.

Fernanda Monteiro, uma amiga que mora na Flórida, e que possui uma empresa que produz granola salgada, me diz com todas as letras: “Não está na cabeça das americanas essa história de fazer comida caseira todos os dias. No dia a dia, elas preferem tirar do pacote e fazer. Nas minhas aulas de culinária, elas querem aprender uma receita diferente para as visitas e só”, explica Fernanda. 

“Minhas amigas americanas também não acham a comida da escola boa, mas por causa da falta de tempo dizem que não têm outra saída a não ser a comida da escola. Todas as crianças têm conta na escola pra poder comer quando precisam”, diz Adélia.

De fato, eu também conheço americanas que acham impossível cozinhar com um dia a dia tão corrido e praticamente ninguém tem luxo de ter cozinheira. Em hipótese nenhuma pensam em fazer feijão ou grão de bico, por exemplo. Elas acham que jamais vão conseguir que os grãos amoleçam, por isso: dá-lhe enlatados. Porque faz parte da cultura, porque foi justamente assim que elas viram as mães fazerem. 

As propagandas de “comida pronta” vendem praticidade mas reúnem o pior para a nossa saúde. As comidas quimicamente processadas possuem alta concentração de açúcar, de sal e/ou de gordura, baixa concentração de nutrientes e fibra, além de ingredientes artificiais. Basta ver o rótulo da embalagem pra constatar o estrago. Outro dia, por exemplo, eu fui conferir os ingredientes na embalagem do achocolatado em pó: tinha de tudo, menos cacau puro. 

Muitas organizações preocupadas com alimentação saudável tentam convencer as famílias a mandarem comida de casa para a escola com ingredientes saudáveis. O próprio site da ex-primeira dama Michelle Obama, falava disso. Eu faço e mando comida de verdade na “lunch box” dos meus filhos, geralmente com a sobra do jantar. Eles gostam e preferem não comer na escola.

Trocando mais ideia com a minha amiga Fernanda, infelizmente também chegamos a conclusão de que a falta de informação e/ou informações equivocadas, mesmo num país desenvolvido, é um grande entrave. “Tem gente aqui que acha que Gatorade é uma bebida saudável. Imagina! O tanto de açúcar! E ainda existe médico que aconselha criança a tomar”, diz ela. E outro ponto: como é que uma criança vai se apaixonar por um brócolis ou por uma maçã, se ela não vê os pais comendo? 

É bem triste que uma em cada cinco crianças americanas em idade escolar tenham problema de obesidade e possivelmente desenvolverão pressão alta, diabetes…. Só para citar alguns dos problemas que a comida sem qualidade causa. É bem triste que nem todas as mães aqui tenham consciência do que seus filhos estão ingerindo.

Eu não me acho melhor do que ninguém, claro que aqui na minha casa também tem dia de pizza e besteiras. Mas eu não faço disso uma rotina. Sigo evitando ao máximo que meus filhos precisem do almoço da escola e sigo fazendo comidinha caseira. Ainda que vez por outra aqui, eu receba um olhar de quem acha que eu não sou desse planeta.


Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 13 anos, e de Alice, de 7 anos. Ela também não tem todo tempo do mundo para cozinhar, mas com criatividade e boa vontade, ela tem conseguido ser até rápida na cozinha.

PS: se você, por favor, conhece uma escola pública que tenha comida boa e de qualidade aqui nos Estados Unidos - me conta! Quem sabe eu leve a idéia para as escolas dos meus filhos.

Meu casamento desandou depois que nosso filho nasceu

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Segue o seu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas

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