Adolescentes e privacidade

Adolescentes e privacidade

Seu quarto,minhas regras.png

“Você saiu de dentro da minha privacidade”. É isso que eu digo, em tom de brincadeira, para o meu filho de 14 anos quando ele começa o papo de: “Você tem que respeitar a minha privacidade!”. Este é um argumento muito forte aqui nos Estados Unidos. É o discurso do “meu espaço, minhas regras”. Algo que eu aprendi a concordar. Ninguém deve se meter mesmo nas escolhas e na vida de ninguém. Mas essa história fica difícil de ser aplicada quando se trata de um adolescente, que depende de você e que ainda não tem a maturidade de tomar decisões.  

Na minha época de adolescente, o auge da minha privacidade era eu ficar no meu quarto de porta fechada sozinha e escrevendo num diário sobre desilusões amorosas, expectativas, desejos, frustrações… Pois é. Bem diferente de um filho num quarto hoje, com acesso à internet e tudo de bom e de ruim que ela pode oferecer. Sim, porque chega o dia em que eles querem ficar de porta fechada, como eu e você já quisemos. E aí?

No primeiro rompante do filho de 15 anos, querendo bater a porta na cara dos pais, uma amiga decidiu retirar a porta do quarto dele. Simples assim. O filho voltou da escola e não tinha mais porta no quarto. Não concordo com esse extremo. Mas segundo a minha amiga, foi realmente para deixar as coisas claras. Foi um susto útil. A porta já voltou para o lugar. E segundo ela mesma me explicou: “A porta agora pode até ficar fechada, mas jamais trancada”.

Li num artigo o posicionamento do professor de sociologia, Frank Furedi, que achei bem pertinente. Ele diz: “Há momentos na vida que você se sente desconfortável com o mundo e quer ficar sozinho. Você pode querer fazer coisas que seriam embaraçosas na frente dos outros, como examinar partes do seu corpo. Quando os adolescentes fecham a porta ou dizem para você ir embora, você deveria respeitar isso e bater na porta antes de entrar.”

Mas a minha grande questão é: em tempo de internet, é mesmo possível respeitar a privacidade de um adolescente? E a minha resposta é não. Pelo menos sob o meu ponto de vista. Eu sei que a gente pode conversar sobre isso com eles, dos perigos por exemplo de ter amigos virtuais e sendo assim desconhecidos. Eu sei que há bloqueios que podem ser feitos no celular de um filho para não acessar determinados conteúdos. Mas ainda assim é muito complicado saber que eles têm um mundo de informações, um conteúdo de influências, à disposição e não necessariamente boas.

O que eu acredito é que os adolescentes ainda precisam ser monitorados para terem certeza de que estão seguros. Claro que eu já preciso dar permissão para que meu filho faça escolhas e aprenda com os erros. Mas não há a menor hipótese dele ter liberdade e privacidade completas. Eu sei… não é nada fácil achar o ponto certo. Há uma linha tênue entre monitorar adolescentes e respeitar suas próprias descobertas. Mas é algo como: ok, eu vou bater antes de entrar no quarto, mas vou entrar.

Uma psicóloga que conheci me contou uma história de uma menina que achava que os pais não a amavam. E a explicação dela era de que os pais não se importavam de como ela deixava o quarto, mesmo bagunçado. Ou seja, os pais deviam achar que estavam no caminho certo respeitando o espaço do quarto da filha e a menina querendo mais atenção, querendo se sentir mais cuidada.

O meu querido amigo, o psicólogo Rossandro Klinkey, diz o seguinte: “A gente pode dar uma privacidade relativa. Porque privacidade total tem quem paga as contas e mora sozinho”. Ele alerta também que a omissão é sempre algo perigoso. “As pesquisas mostram que uma família mais rígida acaba sendo mais funcional do que uma que “deixa pra lá”. O mundo antes invadia mais tarde as casas, hoje em dia com a internet, as redes sociais, o mundo entra muito antes e a gente tem que estar muito mais atento”, complementa Rossandro.

E então? Bisbilhotar quarto, mochila, escritos, sites usados, rede de amigos… vale? Eu acho que não só vale, como isso tudo não precisa ser feito de maneira escondida. Eu sei que muitas vezes é difícil eles escutarem. Então, mesmo que seja um mantra repetido exaustivamente por mim, meu filho sabe que vai ser assim: “Eu preciso te monitorar, para poder te ajudar. Mesmo que você ache que não precisa da minha ajuda”.

Fabiana Santos é jornalista, casada e mora em Washington-DC. Além de Felipe, de 14 anos, é mãe também de Alice, de 8. Ela está aprendendo a começar do zero no quesito maternidade, quando se trata de ter um filho adolescente. Realmente o papo é outro, bem diferente da infância.

Vida de madrasta: se eu competisse com o meu enteado, eu iria perder

Vida de madrasta: se eu competisse com o meu enteado, eu iria perder

Um raio-x inédito sobre criar filhos fora do Brasil

Um raio-x inédito sobre criar filhos fora do Brasil