"Vocês têm arma em casa?" - uma pergunta pra se fazer quando seu filho for na casa de um amiguinho

"Vocês têm arma em casa?" - uma pergunta pra se fazer quando seu filho for na casa de um amiguinho

Quando você recebe um amiguinho do seu filho em casa, ou o seu filho vai na casa de um pela primeira vez, algumas perguntas são feitas de praxe: “Se ele tem alguma restrição alimentar”, “se ele tem medo de cachorro”, “se a área de piscina fica trancada”… perguntas que pais zelosos gostam de fazer.

Aqui nos Estados Unidos, onde eu moro, 1 em cada 3 famílias com filhos possui uma arma em casa. De acordo com um estudo divulgado em 2017 pela Academia Americana de Pediatras, 1300 crianças são mortas por ano vítimas de arma de fogo nos Estados Unidos. É a terceira causa morte em crianças, superando as mortes por doenças graves. De cada 10 crianças mortas, uma foi atingida ou se atingiu acidentalmente por uma arma de fogo.

E justamente por conta desses acidentes que podem acontecer, é que existe aqui nos Estados Unidos uma discussão em torno da necessidade dos pais fazerem, sem cerimônia, a seguinte pergunta quando a criança vai pela primeira vez na casa de um amiguinho: “Vocês têm arma em casa?”. A primeira vez que li sobre isso achei bem esquisito. Mas parei para refletir e achei a pergunta bastante pertinente porque me lembrei de uma história. 

Eu me lembrei da minha época de repórter de TV, em Brasília, quando eu ainda nem tinha filhos e fui fazer uma reportagem sobre uma tragédia. Dois amigos, de 9 e 10 anos, brincavam na casa de um deles. O de 10 anos foi mostrar a arma do pai para o de 9 anos. A arma disparou acidentalmente. O de 9 anos morreu na hora. Nem é possível mensurar a dor das famílias. 

O meu filho com 10 anos tinha um amigo na escola, que era apaixonado por todo tipo de arma de brinquedo. Morava bem perto da nossa casa e vez por outra eu deixava meu filho brincar um pouco lá depois da escola. Um belo dia meu filho veio me contar que o amigo disse que o pai tinha uma arma em casa. Toda aquela história horrível do meu tempo de repórter voltou na minha cabeça. Não proibi a amizade. Mas não consegui mais deixar meu filho ir para a casa dele. Fazia questão de sempre oferecer a nossa casa para as brincadeiras. Eu tinha realmente muito medo de que algo pudesse acontecer, já que o menino tinha mesmo fascínio por armas. Eu me arrependo de não ter usado a pergunta antes do meu filho ter ido lá pela primeira vez.

Este assunto me veio à cabeça depois do anúncio do novo decreto sobre posse de armas no Brasil, permitindo que a pessoa tenha até quatro armas de fogo dentro de casa. O texto diz que “na hipótese de residência habitada também por criança, adolescente ou alguém com deficiência mental, apresentar declaração de que a sua residência possui cofre ou local seguro com tranca para armazenamento”. Não sei como isto será fiscalizado. Mas não estou aqui para discutir a lei, nem política, nem políticos. Escrevo no meu blog sobre maternidade, como mãe. E acho pertinente, nesse momento em que a posse de armas foi facilitada no Brasil, que você como mãe pergunte para uma outra mãe, na hora de marcar uma tarde de brincadeira para o seu filho: “Vocês têm arma em casa?” E a partir daí, decidir o que fazer.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 14 anos, e de Alice, de 7 anos. Eles moram em Washington-DC. Ela tem horror a armas, mas respeita quem defende. Só quer mesmo que qualquer arma esteja bem longe do alcance de qualquer criança.

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