Como a minha filha começou a ler em português por conta própria fora do Brasil

Como a minha filha começou a ler em português por conta própria fora do Brasil

A gente nunca forçou nada aqui em casa em relação à leitura em português. Nem tenho nenhuma experiência como alfabetizadora, nem meu marido. Mas é preciso deixar bem claro a ressalva de que desde sempre meus filhos têm o português naturalmente na vida deles. Foi a primeira regra entre nós quando decidimos morar nos Estados Unidos: dentro de casa só falamos português. Um alívio para os avós quando vêm nos visitar e quando vamos ao Brasil. Com a exceção é claro de não deixar nenhuma visita que não fale português constrangida: se tem visita, falamos em inglês.

Eu tive a sorte do meu filho já chegar nos Estados Unidos alfabetizado em português. Mas minha filha mais nova chegou aqui com quatro meses de vida. Por causa da escola, a gente quis que ela fosse alfabetizada em inglês de maneira confiante. E a ideia era: “Depois dela estar tranquila lendo em inglês, a gente pensa no que fazer com o português”. 

O que eu e o meu marido não imaginávamos era que justamente por conta da total exposição ao português, a leitura entrou na vidinha dela muito naturalmente. O pai sempre leu todas as noites para ela, ou um livrinho em português, ou um gibi da “Turma da Monica”, desde que ela tinha uns 2 aninhos. Os gibis são os preferidos dela. Ela se delicia com as historinhas, ama todos os personagens. A coleção de gibis trazidos por nós, pelos amigos e parentes do Brasil é gigante. 

O horário de ler antes de dormir sempre foi sagrado e assim, o hábito a fez adorar esse momento. Quando ela começou a ler por conta própria em inglês, por volta dos 6 anos e meio, o interesse dela pelas palavras, pela identificação das letras foi aumentando. Ela já lia sozinha, com a nossa supervisão, os livros em inglês para a faixa etária dela: comprados ou vindos da biblioteca da escola. E o meu marido continuava depois que ela lia os livrinhos dela, a ler as historinhas da Turma da Monica. Ela acompanhava cada vez mais atenta.

Foi tudo gradativo e prazeroso. Primeiro ela começou a querer dividir os personagens: meu marido lia um balãozinho, ela lia o outro. No começo com uma maior ajuda para identificar as palavras… e aos poucos ela foi se soltando. A cada dia, ela fica mais confiante e os errinhos de leitura vão diminuindo.

Agora ela já nem quer mais ninguém dividindo a leitura com ela. Para algumas palavras, claro, ela ainda precisa de uma ajudinha, mas ela vibra ao concluir cada história. No começo, a gente ia tentando consertar os erros de português do Cebolinha, para não confundi-la. Hoje, ela já sabe bem que ele troca o “R” pelo “L” e faz questão de ler como ele fala… achando a maior graça.

Isso tudo vem acontecendo no último ano. Em abril ela faz 8 anos. 

A portuguesa Silvia Melo-Pfeifer, que trabalha na área de Português Língua de Herança (PLH) e é professora da Faculdade de Educação na Universidade de Hamburgo, na Alemanha, apóia outras maneiras simples de introduzir a leitura e até a escrita em português para os filhos de expatriadas. No caso dela, os filhos, uma com 11 e o outro com 7, se interessaram em ler por questões mais pragmáticas: para fazer uma receita ou se comunicar com a família por mensagens de WhatsApp. “Eu nunca lhes ensinei a ler em português explicitamente. Mas sempre ia mostrando como era bacana as palavras no nosso idioma quando eu tinha oportunidade”. Ela lembra do orgulho da filha, numas férias em Portugal. Ao voltar do banheiro num restaurante, a menina disse: “Mamãe, já estou lendo em português! Na porta do banheiro estava escrito: - Não colocar papel no vaso sanitário!”, me conta Silvia.

Eu não sou nenhuma especialista em educação infantil, como já expliquei aqui. Mas eu não tenho a menor dúvida de que, no caso da minha filha, a exposição ao idioma, de maneira divertida e muito por conta da leitura, fez grande diferença no resultado que tivemos. Eu juro que eu gostaria de agradecer pessoalmente ao Maurício de Sousa. Ele nem imagina o alfabetizador que ele se tornou mundo afora. Pois já vi relatos de outras mães que tiveram a mesma experiência. “Obligado”, Cebolinha! Valeu, Mônica, Magali e Cascão!

Abaixo… Alice lendo “Magali”:


Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 14 anos, e de Alice, de 7 anos. Eles moram em Washington-DC. Pra quem ainda não sabe, aqui um dica de ouro pra ter acesso a todo o acervo da Turma da Monica por um aplicativo que se chama Banca da Monica. É preciso pagar (e não estamos ganhando nada com a divulgação) mas pra quem é super fã e não tem uma banca perto de casa, vale a pena. 

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