Desde muito cedo as crianças norte-americanas aprendem sobre "meu corpo, minhas regras"

Desde muito cedo as crianças norte-americanas aprendem sobre "meu corpo, minhas regras"

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Você ensina a sua criança, mesmo ainda pequena, lá pelos 2, 3, 4 anos, que ninguém pode tocar no corpo dela? Você ensina a esta mesma criança que quando ela for usar o banheiro, por exemplo, ela deve pedir para ficar sozinha? Que ela deve falar explicitamente para qualquer adulto ou outra criança que estiver com ela para que respeite seu espaço e sua privacidade? Sim? Não? Depende?


Pois aqui nos Estados Unidos esta é uma regrinha de ouro, que desde muito pequena toda criança aprende: meu corpo, minhas regras. Desde muito novinha a criança sabe que não deve aceitar ajuda de ninguém para se limpar no banheiro, por exemplo, nem muito menos deixar que alguém fique “vigiando” se está tudo bem. É assim: desde o momento que a criança aprende a usar o banheiro sozinha, o “sozinha” não é apenas uma expressão, é fato. Exagero? Precaução. 


Eu confesso que fiquei meio sem graça uma vez quando acompanhei a filha de uma amiga ao banheiro de um shopping por aqui. Como toda brasileira no estilo “prestativa” e que faz tudo pelas suas crianças, eu achei que estava certo tentar ajudar a filha de 4 anos da minha amiga para que ela se ajeitasse na privada e, se precisasse, eu estava pronta para ajudar em mais alguma coisa. Mas em alto e bom som a menininha deixou as coisas bem explicadas pra mim: “Pode fechar a porta, por favor. Eu não preciso de ajuda”. Ok, eu disse. Fiquei constrangida, mas aprendi. Ninguém com tão pouca idade diz isso por conta própria, é claro que ela foi ensinada a sempre dizer isso. A privacidade quanto ao corpo se aprende de pequeno por aqui. E nem pense que uma professora irá acompanhar seu filho, que já não usa fraldas, ao banheiro numa pré-escola. É cada um por si.


O mesmo tipo de coisa aconteceu na primeira vez que recebemos um amiguinho do meu filho para dormir em casa. Já eram mais velhos, 9 anos. Mas o amigo em tom sério me disse que iria entrar no banheiro para trocar de roupa e pediu para trancar a porta enquanto estivesse no banho. Ok, eu disse mais uma vez. E aprendi que ele não queria ser surpreendido por ninguém num momento de total privacidade, o banho. Mesmo eu me considerando uma mãe zelosa, tratando os amigos dos meus filhos com todo carinho e  acostumada a entrar no banheiro dos meus filhos a qualquer hora e por qualquer motivo. Aprendi, mais uma vez,  a não confundir atenção com intromissão na privacidade alheia, mesmo sendo de uma criança. 


Talvez este texto não faça muito sentido pra você, que desde sempre ensinou seus filhos a agirem assim. Mas numa cultura como a brasileira, fomos acostumados a ter sempre uma figura maternal ajudando uma criança pequena a fazer as coisas. Seja esta figura uma tia, uma amiga da mãe, uma avó, uma professora, uma babá ou uma criança mais velha. Faz parte do jeito brasileiro de se criar filho. Mas diante de tantas coisas malucas acontecendo e vindo à tona, este tipo de cuidado faz todo o sentido pra mim. 


Eu acho que ninguém deve se meter na maneira que cada uma decide criar os filhos. Este texto é apenas uma reflexão a respeito de um tema relevante: o abuso sexual sofrido por crianças - um fantasma mais real do que muita gente imagina. Não quero fazer nenhum terror aqui. Mas será que não valeria a pena, criar uma criança de maneira mais independente? E essa independência incluir aprender a se limpar sozinha, a saber pedir privacidade, a não deixar ninguém tocar no corpo dela, a confiar na mamãe para contar coisas que a deixa constrangida?


Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 14 anos, e de Alice, de 7 anos. Eles moram há 7 anos nos Estados Unidos. Se você se interessou pelo assunto aqui vai um texto com outras dicas: “Como ensinar nossas crianças que ninguém pode tocar no corpo delas”. Ela também presta mentoria para mães fora do Brasil: uma conversa de uma hora por Skype para tirar dúvidas e ampliar a zona de conforto! Se ficou interessada, entre em contato pelo nosso email: tudosobreminhamaeblog@gmail.com

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