7 perguntas para a escritora Nalu Saad: sobre um livro infantil para lidar com o câncer

7 perguntas para a escritora Nalu Saad: sobre um livro infantil para lidar com o câncer

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O que é possível fazer por uma criança que vai passar ou está passando por um tratamento contra o câncer, como a espera por um transplante de medula? A escritora de livros infantis, Nalu Saad, resolveu escrever um livro: “Esquadrão dos Anjos”. Pedro Jardim e Maria Flor são os personagens que enfrentam o que é difícil com mais coragem e mais leveza porque eles estão cercados por vários tipos de anjo: o da Paciência, Verdade, Alegria, Soninho, Dengo. A escritora mora em Belo Horizonte, também é jornalista, tem 3 filhos (Igor, 18, Natália, 15, Luísa, 12) e ainda tem tempo de fazer bolos para sua confeitaria. Ela diz que os filhos a inspiram e tem um lema: “Tenho pra mim que a verdade é sempre a melhor estratégia. Se meus filhos iam tomar injeção e me perguntavam se ia doer, eu respondia: vai, mas passa e você esquece!”. 


1.Como nasceu a ideia do livro?

O filho de um amigo teve uma recidiva de câncer e ele queria escrever uma história para o menino de 6 anos saber que ia passar por tudo de novo. Eu não imaginava o que dizer àquela criança que fosse mágico mas não parecesse bobo. Eu tinha acabado de entrevistar o médico e hematologista Vanderson Rocha sobre um raro transplante de medula que ele tinha feito numa menina de dois anos de idade. Resolvi perguntar o que ele diz para crianças que vão passar por tratamentos pesados. Ele respondeu muito rápido pelo WhatsApp: "Digo que é uma batalha de anjos". Gostei da resposta e a história não me deu sossego. Em menos de duas horas escrevi a primeira versão e enviei para ele ver. Eu sentia que ele poderia contribuir. Mas o cara tem o maior índice de artigos científicos da USP, um dos melhores no mundo na área dele, achei que não teria tempo para ler uma história infantil. Ele não só leu como retornou dizendo que deveríamos fazer algo mais. E assim foi quase um ano de trabalho juntos.

2. A gente pode dizer que é uma história inventada baseada em fatos reais já que a co-autoria é justamente a de um médico que trata crianças com câncer?

Boa! A realidade está nos sintomas e sentimentos das crianças. Algumas frases vieram, inclusive, de meninos e meninas que contribuíram por meio de entrevistas. Foi aí que a primeira versão que escrevi começou a mudar. A gente tem ideias pré-concebidas de filmes e de relatos de terceiros que nem sempre condizem com a realidade. Por exemplo, eu imaginava a criança nauseada sempre, mas algumas não ligam tanto para isso é só querem poder brincar. Elas sofrem mais com o isolamento que lhes é imposto, a perda dos cabelos e o uso da máscara do que com a injeção e os remédios. 


3.Durante a sua pesquisa para o livro, o que você descobriu sobre as crianças em tratamento?

As entrevistas com pacientes eram feitas pelo Dr. Vanderson que me enviou alguns vídeos dessas conversas e também recebi informações da equipe multidisciplinar dele. Eles me enviavam histórias do dia a dia no hospital, desenhos feitos pelos pacientes e situações marcantes. Aos poucos, fui percebendo que essas crianças têm muita força interior, às vezes maior do que a de seus pais e familiares, e que não querem ser enganadas mas também não podem perder a infância. É preciso equilibrar, deixar que ainda sonhem mas ser verdadeiros com elas sobre o fato de que enfrentam uma doença grave, afinal, ninguém mora meses num hospital se não for grave.

4. Acho importante mostrar que o livro não é sobre uma história triste, né?

É uma história feliz porque os personagens transformam o hospital numa extensão de seus quartos. Isso acontece na realidade. As crianças brincam e fazem amigos pelos corredores, as famílias dividem experiências e levam essa amizade além do hospital. Mais do que espantar o medo, a história tem como proposta mostrar que pode ter medo, mas tem que falar a respeito. Falando fica mais fácil e mais leve. Isso mostra aos pais que as crianças sentem o risco que correm e precisam de informação verdadeira. Pode ser de forma lúdica, com anjos e super-heróis,  porque isso faz parte da infância, mas os pais não podem deixar de contar aos seus filhos o que eles vão enfrentar.


5. O ator Reinaldo Gianecchini, que foi curado de um câncer, escreveu o prefácio do livro. Como se deu esse encontro?

Gianecchini foi transplantado pelo dr. Vanderson Rocha, co-autor do livro. Quando o livro estava editado, o médico enviou para ele uma versão para que conhecesse. O ator pode, então, imaginar como teria sido se ele fosse uma criança. O prefácio reforça que somente com uma grande rede de amor, amigos e profissionais da saúde dedicados é possível passar por tratamentos pesados. Os pais podem e devem estimular seus filhos a enviarem bilhetes, desenhos, mensagens de áudio e texto e telefonarem aos amigos doentes, além de visitá-los se for possível.


6. Por que vocês decidiram reverter todo o dinheiro do livro para doação?

O dinheiro será revertido para uma ong criada pelo próprio Dr. Vanderson cujo objetivo é apoiar as crianças e adultos transplantados. O pós-tratamento é muito delicado e muitos pacientes se tratam em grandes centros, fora de suas cidades. Isso implica em muitos custos. A alimentação também tem que ser muito boa e os deslocamentos para exames são muitos. O SUS hoje não dispõe de leitos o suficiente para a quantidade de crianças que precisam passar por um transplante de medula óssea no Brasil. Os recursos também serão destinados a pesquisas de terapia celular no Brasil. Infelizmente estamos infinitamente atrasados. Sabemos que é tudo muito grande e nossa contribuição será pequena, mas colocar a importância dessa pesquisa em destaque alerta a todos de que precisamos nos mobilizar para isso.


7. Qual a maior mensagem desse livro a partir da sua experiência ao escrevê-lo?

Que a vida é o instante. Se nesse instante estamos num hospital, façamos de tudo para transformar isso em momentos de alegria. Mesmo sendo poucos, mesmo existindo alguma dor e algum medo, vamos observar os anjos que estão ao nosso redor. Se estamos saudáveis, celebremos. Precisamos ensinar isso às nossas crianças. Ter saúde, família e amigos são os maiores motivos de nossa felicidade. E quem não tem saúde, deve ser feliz por ter família e amigos. E vice-versa. Acredito que se os adultos passarem a ver a vida sob esse ângulo, as crianças também aprenderão. 


O lançamento do “Esquadrão dos anjos” será de 4 da tarde às 8 da noite, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, no dia 24 de fevereiro de 2018. Em Belo Horizonte , o lançamento será dia 17 de março, também no Centro Cultural Banco do Brasil, às 11:30 da manhã. A pré-venda está no site da editora.

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