As duas são minhas filhas. E daí?

As duas são minhas filhas. E daí?

Bárbara, de 10 anos, e Gabriela, de 9 anos, filhas de Junya. (Arquivo de família)

Bárbara, de 10 anos, e Gabriela, de 9 anos, filhas de Junya. (Arquivo de família)

Eu adotei sozinha uma menina negra. Ela tinha quase 4 meses. Ao me inscrever no juizado, escolhi apenas sexo e uma faixa etária. Dei a ela o nome de Bárbara. Fiz promessa para Yansã, minha orixá. Ouvi de uma pessoa o seguinte; 

- Junya adotou uma “ chipanga”.

Pela primeira vez, revelei o meu lado mãe leoa. Meu recado foi educado, firme e contundente: não me importava a cor dela. Ela era a minha filha e, querendo ou não, isto não mudaria nossa condição de mãe e filha. Se a cor era um problema para a pessoa preconceituosa, ela tinha duas opções: a oportunidade de conviver conosco ou se afastar. Penso que a pessoa teve a oportunidade de refletir a respeito e optou pela convivência. Hoje a minha filha é muito querida por ela. 

Se eu fosse relatar tudo que vivenciei ao lado de Bárbara, ao longo destes 10 anos de vida que ela tem hoje, daria um livro. Mesmo com muito mais capítulos bons e felizes, há alguns capítulos bem ruins.

O mais recente foi entrar com minhas duas filhas numa farmácia. Importante explicar que eu tive uma filha, Gabriela, após a chegada da Bárbara – loira, branca, de olhos azuis. A diferença de idade entre elas não chega a um ano. Bárbara já foi logo para a seção de brinquedos. Antes que eu pudesse alcançá-la, o gerente e o segurança da loja já estavam rondando-a. Eu estava a uns 15 metros afastada mas de olho na cena. É uma farmácia que vamos sempre, desde que ela chegou. Tomou lá algumas vacinas e alguns dos atendentes a conhecem desde bebê. Larguei minhas compras no balcão de atendimento e fui ao encontro dela de forma carinhosa, peguei em sua mão e a trouxe para perto de mim, chamando-a de filha. Os dois desapareceram da minha frente como dois raios. O rapaz, que me atendia, veio atrás de mim com a cesta de medicamentos na mão para me entregar, pois eu havia “ esquecido” no balcão. 

-Muito obrigada pela sua atenção, mas eu desisti de comprar aqui. A cena que eu acabei de presenciar foi lamentável. Minha filha é uma criança e tão pequena já é vítima da ignorância e do preconceito por ser negra. O que foi feito aqui foi uma estupidez e é uma pena que eu não possa processá-los por injúria racial, pois não teria como provar. Minha outra filha, aquela loirinha ali, fazia a mesma coisa que minha outra filha fazia e, no entanto, não foi “ perseguida” por ninguém da loja.

Não disse isto na frente delas, claro. Tive vergonha de ter que explicar às minhas filhas o que é uma pessoa estúpida e irracional.

Nem tudo eu consigo levar numa conversa. Já tive meus momentos de fúria e me rebelei muitas vezes, quando de alguma maneira a atacam por ser negra. Recentemente, estudando a história da escravidão brasileira, ela me perguntou o que era preconceito e para o quê ele servia. Ela queria saber por que as pessoas não gostavam dos negros. Esta pergunta está entalada na minha garganta até hoje. Qualquer resposta que eu dê a ela passará por juízo de valor, e se eu fizer isto estarei ensinando a ela o que é preconceito e ódio. 

Ela já me questionou por ser de cor diferente. 

- Filha, Deus fez as pessoas diferentes. Se todas fossem iguais, não teria graça. Se todos tivessem o mesmo nariz ou o mesmo olho, já pensou? 

 Ensino-a a ser altiva, independente, dona de si e portadora de todos os direitos que lhe são permitidos como ser humano. Ela aprende a transitar em todos os lugares, de uma forma respeitosa e saudável, de cabeça levantada. Já a chamaram de “ escurinha” na escola. Chegou triste em casa. Já falaram do cabelo dela e ela disse que o cabelo dela é lindo, fofinho, limpinho e cheiroso. Já disseram a ela que ela é preta e a mãe é branca. Que a outra mãe não a quis e a jogou no lixo. Sim. Ela ouviu isto de outras crianças. Pensa que ela se fez de rogada? Continuou na dela, se fazendo presente e aprendendo a ignorar lindamente. Eu a ensino a não se vitimizar por nada: por ser adotiva, por ser negra, por ser menina. Não fico lembrando que ela é negra e que deverá carregar as dores do mundo por isto. Não é assim que podemos vencer as dificuldades e a estupidez humana. 

Um dia, vi uma entrevista da Maju, a jornalista Maria Júlia Coutinho, que foi brilhante. Perguntaram a ela como ela fazia para driblar o preconceito racial. A resposta dela foi bem simples. Disse que o pai sempre foi um homem muito voltado para cultivar a felicidade e o amor. E que ele ensinou aos filhos a não baixar a cabeça por nada. Não se dobrar às ofensas. 

Me senti feliz por perceber que estou no caminho certo. 

Esta semana, estava em uma loja de festas com a minha filha olhando alguns adereços para que pudéssemos brincar o carnaval. Ela achou uma peruca Black Power, me trouxe e disse: 

- Mamãe, compra esta peruca pra você ficar com o cabelo igual ao meu? 

Acho que eu não preciso dizer mais nada, não é mesmo? 

Junya Sant’Anna é empresária e mora em Belo Horizonte. Ela gentilmente nos deixou editar e publicar este texto dela. Já falamos de Junya aqui no blog. Foi dela a ideia brilhante da “foto da barriga” para mostrar como Bárbara “nasceu”. Clique aqui para ver esta história.

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