Eu sabia que ele era o seu filho

Eu sabia que ele era o seu filho

Estou contando esta história quase um ano depois que ela aconteceu, mas ela me marcou muito e marcou muito a Fabiana, que desde então me pede para escrevê-la no blog.

Eu tinha acabado de passar (mais) 10 dias em silêncio, em um retiro de meditação vipassana (Já escrevi sobre meu primeiro retiro aqui no blog) e estava dando carona da Bélgica para a Alemanha para 3 pessoas que tinham feito o curso comigo. Uma menina e um menino na faixa dos 20 e poucos anos, e uma mulher com mais ou menos a minha idade, 40 e pouco.

Quando você termina um curso desses, você se sente a pessoa mais feliz do mundo, e nós 4 viemos conversando alegremente a viagem inteira. Foi uma viagem muito legal. Mas eu não via a hora de ver os meus filhos. Aquele tinha sido um curso super duro para mim, e fechar os olhos à noite e pensar neles, era um bálsamo no meio da faxina emocional que eu estava fazendo ao meditar 10 horas por dia.

A Claudia, a alemã que vinha comigo no carro, me disse que também não aguentava mais de vontade de ver o filho, David, um menino de 10 anos. Começamos aquele papo básico de mães e ela me contou então que o menino frequentava uma escola para crianças com deficiência. Não me lembro agora exatamente qual era a necessidade dele, mas ela disse que ele tinha nascido com uma mal formação congênita e que havia limitações físicas e mentais. Contou que ele usava cadeira de rodas, que falava muito pouco e bem enrolado, que precisava de ajuda para se alimentar. E que por conta da sua saúde frágil, ela e o marido passavam muito tempo no hospital. E finalmente disse que estava feliz de ter conseguido a vaga nessa escola especial, porque a tentativa de colocar o menino numa escola “inclusiva” tinha dado super errado. E ainda me contou que o David era uma criança muito doce e muito sensível, e que graças a Deus agora ele estava num lugar que conseguia de verdade atender as necessidades dele.

Quando paramos em um sinal, ela me perguntou se eu queria ver uma foto dele. Examinei a foto com carinho. Seu rostinho mostrava as marcas da deficiência mas ele era um menino muito bonito. “Eu gosto de mostrar a foto dele para as pessoas”, ela me disse. “Quando a gente fala que tem um filho com deficiência, as pessoas imaginam que você tem um monstrinho dentro de casa, mas o David não é apenas uma criança bonita, ele é muito alegre, uma criança feliz mesmo”.

Deixei a Claudia em casa bastante impressionada. Afinal, quem podia imaginar que por detrás daquele semblante calmo e doce havia tantas dificuldades?

Umas duas semanas depois estou dirigindo e vejo vindo na direção contrária à minha um pai levando o filho naquelas bicicletas holandesas, que têm tipo uma caixa de madeira acoplada na frente para transportar crianças. Aqui é muito comum. O pai parecia estar gostando do passeio, mas o menino estava literalmente se divertindo horrores. Ele segurava uma bexiga, tinha os bracinhos meio levantados e com um sorriso largo parecia estar se deliciando com o ventinho que batia no seu rosto. No momento em que meu carro cruzou os dois e que eles passaram do meu lado, vi melhor o rosto do menino. Foi tudo muito rápido, mas achei que o menino era o filho da Claudia.

Eu não queria dar uma de louca, Colônia é uma cidade grande, mas no dia seguinte não aguentei e mandei uma mensagem para ela: “Claudia, pode ser que seu filho e seu marido estavam com uma bicicleta holandesa na rua X, tipo umas 16 horas de ontem, e que seu filho tinha uma bexiga na mão?”. Ela disse que com certeza eram os dois. Que neste horário o marido apanhava o filho na escola, que eles voltam por essa rua de bicicleta e que ontem o David tinha ganhado um bexiga quando eles pararam na farmácia.  “Como você conseguiu reconhecer o David? - ela me perguntou atônita. “Você só viu a foto dele uma única vez!”

E eu consciente de que aquela história era uma coincidência absurda mesmo, respondi da maneira mais sincera possível:  “Eu reconheci o David porque você me disse que ele era feliz.”

Depois de uns dois dias recebi uma mensagem dela: “Camila, alguém ter reconhecido meu filho na rua por ele ser feliz, foi um dos maiores presentes da vida nos últimos tempos.”

15 rituais em família que ensinam responsabilidade, compaixão e positividade

15 rituais em família que ensinam responsabilidade, compaixão e positividade

Com o filho no colo, mãe solo recebe diploma em Harvard

Com o filho no colo, mãe solo recebe diploma em Harvard