Um raio-x inédito sobre criar filhos fora do Brasil

Um raio-x inédito sobre criar filhos fora do Brasil

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A psicóloga Laís Granemann passou dois anos investigando como é ser pai e mãe brasileiros fora do Brasil. Os interessados em colaborar na pesquisa responderam um questionário online. Foram 1.168 entrevistados em 48 países, sendo mais de 90% mulheres. Todos precisavam ser brasileiros e morando fora com os filhos durante a pesquisa. A maioria dos pesquisados têm escolaridade superior e média salarial igual ou acima da média do país de moradia. 


Nós aqui do blog temos uma pontinha de orgulho de saber que as nossas postagens influenciaram para que Laís decidisse saber mais sobre o nosso público. A psicóloga, que faz atendimento online justamente para brasileiros que moram no exterior, já morou no Canadá, Estados Unidos, Hungria e Itália. Hoje está, como ela diz, “temporariamente” em Santa Catarina.


O trabalho virou tese de Mestrado, defendido recentemente no Departamento de Psicologia Social da Universidade de Brasília. E a gente conta aqui em primeira mão o que pensam as famílias expatriadas quando têm filhos.


Logo de cara na pesquisa o que mais impressionou a psicóloga foi o número de menções no quesito “oportunidades”: o dobro em relação ao quesito “desafios”. “É preciso atenção para o fato de que as pessoas são mais reticentes ao falar de problemas, mas de qualquer maneira elas citaram muito mais as oportunidades”, explica Laís.

E aqui vai pela ordem, as “oportunidades” mais citadas:

1- escolas;

2- segurança;

3 - envolvimento com outras culturas, não apenas a do país de moradia;

4 - lazer (desde aulas extra-classe para os filhos, acesso a museus até viagens);

5 - aprender outras línguas (não só a do país anfitrião).

Com relação as “dificuldades”, foram mais citadas:

1 - adaptação cultural;

2 - falta de suporte na área emocional;

3 - falta de suporte com ajuda prática em casa.

4 - os pais falarem a língua estrangeira;

5 - os filhos falarem o português.


Cerca de 60% dos entrevistados já estão morando em outro país entre 2 e 5 anos. E a média de idade dos filhos dos entrevistados é de 5 anos de idade. Uma constatação da pesquisa foi a de que o tempo fora está diretamente ligado à adaptação. Quanto mais tempo no país, maior a adaptação. E quanto mais diferente culturalmente o país é do Brasil maior a dificuldade de adaptação tanto na área psicológica quanto na área sócio-cultural, ou seja, da vida prática.


Um fator interessante é que se a pessoa está trabalhando fora, a adaptação se torna mais tranquila e rápida. Ter um trabalho, o contato com colegas, ajuda muito, segundo a pesquisadora. E outra questão que vale pra todo expatriado lembrar e constatada na pesquisa: pessoas mais adaptadas percebem mais oportunidades à sua frente. 


Sobre as crianças, especificamente aquelas que saíram do Brasil para morar em outro país, os pais relataram dificuldades nas diferenças culturais. Por exemplo, o fato das crianças brasileiras estarem acostumadas a “beijos e abraços” e sentirem essa mudança de comportamento. E ainda, muitos pais citaram que a independência dada para crianças muito cedo é um fator estranho para eles. Crianças, por exemplo, que vão andando para escola sozinhas aos 5 anos de idade. 


43% dos entrevistados não estavam trabalhando. Entre os homens, 78% trabalham período integral (full time) enquanto apenas 27% das mulheres trabalham em período integral. Interessante que a ideia de que é a mulher que cuida mais da casa, como acontece no Brasil, também aparece fora dele. Além do fato de custar caro deixar os filhos por conta de alguém enquanto se trabalha.


Entre os pesquisados, quem é casado com estrangeiro se mostrou com mais dificuldade na adaptação sócio-cultural. “No caso de quem convive com uma pessoa não-brasileira, eles apontaram que é mais complicado porque é preciso aprender a negociar uma diferente cultura dentro e fora de casa, e ainda mais quando se trata da criação dos filhos”, explica a psicóloga. Entre os pesquisados: 55% têm companheiro (a) brasileiro (a).


Fazer os filhos falarem português foi abordado na pesquisa como dificuldade, ainda que apareça em quinto lugar. Houve comentários do tipo: “Meu filho não me responde em português”; “Meu filho não entende a bronca que eu dou em português e eu tenho que repetir na outra língua”. Entre todos os entrevistados: 50% falam português com os filhos. Mas houve também mostras de sucesso quanto ao aprendizado linguístico e alguns comentários surpreenderam a pesquisadora: de crianças não só bilingues, mas falando até mesmo 4 línguas.


Sobre o quesito “saúde” a pesquisa não apresentou um consenso. Houve quem elogiou muito e quem reclamou demais. Houve pesquisados com filhos autistas, por exemplo, que disseram estar muito satisfeitos com a assistência médica. Mas em outros comentários, por exemplo, havia reclamação de médicos inacessíveis e uma mãe contou que um dentista deixou o dente com cárie piorar até o dente precisar ser extraído.


E pra completar: 56% dos entrevistados não têm intenção de voltar para o Brasil. 

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