"Tem muita criança sofrendo por negligência dos pais": o relato da professora de uma escola da elite brasileira

"Tem muita criança sofrendo por negligência dos pais": o relato da professora de uma escola da elite brasileira

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“Tem muita criança sofrendo por negligência dos pais”, foi o que me disse em entrevista uma professora de uma escola de elite da capital do Brasil. Esta entrevista foi feita, obviamente, de maneira anônima.


“Pais e māes ausentes existem muitos. E estamos falando de escola de gente rica, né?”, diz a professora de alunos do quinto ao sétimo ano (na faixa de 10 a 13 anos). Eu peço exemplos, ela relata: “Tenho aluno que já recebeu mais de 50 notificações na agenda porque não fez tarefa, não entregou trabalho, por mal comportamento … e o pai ou mãe não assina. Há pais que já foram convocados para reunião mais de 5 vezes e não aparecem. Menino que vem com o mesmo uniforme a semana toda, que não escova os dentes, não toma banho e não passa desodorante e a gente precisa orientar porque os colegas reclamam do mal cheiro.”

Impossível não me lembrar do que sempre diz o pediatra Dr. José Martins Filho (que já entrevistei aqui no blog): “Se você não está tendo trabalho para educar o seu filho, então não está educando-o. Porque educar filho dá trabalho”.

Os relatos da professora quanto a omissão de famílias abastadas em relação aos próprios filhos não param: “Já vi caso de pai que não comprou o caderno de redação e após a professora pedir inúmeras vezes, ela mesma comprou para o aluno. Não é falta de condição financeira, é falta de amor, de carinho mesmo. Porque em geral,  os que têm baixa condição financeira na escola são os bolsistas e são bem cuidados”, explica a professora.

A minha entrevistada afirma que muitos pais sequer abrem a agenda escolar dos filhos e depois reclamam na escola que a criança não tinha avisado nada. “Como você vai querer que uma criança de 10 anos seja a responsável por exigir que a família compre material ou pague um passeio? Já tive aluno que não participou até mesmo da cerimônia de encerramento do quinto ano e a mãe me disse que não soube de nada, que o filho não avisou que queria participar. Isso porque foi bilhete na agenda, por e-mail e no aplicativo da escola”, explica a professora.

“É uma geração na qual os pais estão delegando tudo para a escola. Os pais deveriam educar e os professores ensinar os conteúdos. Mas a gente tem que fazer de tudo”, desabafa a professora.

E tem ainda os pais que querem burlar as regras. A professora conta: “Muitos pais que parecem se importar só sabem reclamar que querem nota máxima mesmo sem o filho ter merecido. Teve uma caso da família que marcou uma viagem à Disney e o aluno perdeu tanto a prova quanto o prazo para uma prova substitutiva. O pai fez o maior escarcéu na escola porque não queria que o filho ficasse com zero”. 

Exemplos de pais distorcendo o que é certo e errado não faltam. O que para a professora não deixa de ser uma outra forma de abandono, o moral. “Há mães que fazem toda a tarefa pelo filho, escrevem no caderno com a própria letra e quando não aceitamos fazem um show. Eu mesmo passei por isso e a mãe veio argumentar que eu havia dito que ela podia ajudar a filha a fazer. Teve ainda um aluno que enrolou e não fez a atividade no caderno. O professor deu um tempo para ele atualizar o conteúdo. O pai resolveu o problema tirando foto do caderno de um colega, colando no caderno do filho e mandando que ele mostrasse ao professor.”


”Infelizmente nāo sāo maioria os pais que estimulam, dão suporte, orientam”, conclui a entrevistada. Eu encerro a minha entrevista, querendo saber como ela e os colegas se sentem diante desse cenário: “Todo mundo cansado, estressado, muitos tomando remédio pra dar conta. Às vezes temos que aguentar calados a escola ficar do lado dos pais pra não perder aluno. Esse ano tivemos até pai de aluno investigando nossas vidas em redes sociais pra ir reclamar na direção”.

Não toquem no meu bebê!

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E esse ano, vai ter verão?

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