Dependência de jogos online: em busca de respostas para a doença deste século

Dependência de jogos online: em busca de respostas para a doença deste século

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O Dr. Susumu Higuchi, que dirige o Centro Médico e de Dependência de Kurihama, na província de Kanagawa, no Japão, não tem dúvidas sobre os riscos à saúde mental por conta dos jogos online.


O médico iniciou em 2011 o primeiro estudo no Japão sobre o vício em internet. Atualmente, há 84 em todo o país. Higuchi observou que o número de pacientes viciados em jogos online estão crescendo constantemente. "Dos 269 pacientes que acompanhamos com vício em internet, 241 têm transtorno de jogo como seu principal vício", diz ele. "Destes, 215 são do sexo masculino”, diz o Dr. Higuchi. 

Os pacientes têm uma variedade de sintomas, mas geralmente são incapazes de limitar o tempo que passam jogando e continuam a jogar apesar das consequências negativas, como abandonar a escola (quase três quartos dos pacientes são estudantes) ou perder um emprego.

Ainda no Japão, uma pesquisa nacional recente sobre “dependentes da internet” relatou que aproximadamente 1,82 milhão de homens com 20 anos de idade ou mais viviam com vício em internet em 2018, quase três vezes maior do que o número registrado em 2013. A mesma pesquisa constatou 1,3 milhão de mulheres adultas vivendo com dependência de internet, em comparação com 0,5 milhão em 2013.

O problema está por toda a parte. Na Suíça, por exemplo, um relatório encomendado pelo Departamento Federal de Saúde Pública, publicado em 2018, constatou que cerca de 1% da população (cerca de 70 mil pessoas) são usuários “problemáticos” da internet.

Desde 2007, a médica Sophia Achab dirige um programa de dependência comportamental no Hospital Universitário de Genebra, onde vem tratando de pacientes com distúrbios de uso da internet (desde viciados em jogo online à pornografia na internet). Como o médico japonês, ela tem visto um aumento constante de pacientes com problemas de jogo online, bem como uma proporção crescente de pacientes cada vez mais jovens do sexo masculino. “Hoje, 43 dos nossos 110 pacientes com dependência interna são principalmente viciados em jogos, 40 deles meninos e homens jovens e apenas três meninas”, diz ela.

A médica cita a história de um homem de 22 anos que foi trazido pela mãe. “Ele abandonou a escola dois anos antes e se recusava a deixar o quarto, onde jogava 18 horas por dia. Ele estava com coágulos sanguíneos nas pernas devido à inatividade física ”, diz ela.

Tratar esses pacientes é extremamente desafiador, em parte devido à onipresença da internet. “De certa forma, o vício em jogos é mais difícil de tratar do que o vício em álcool ou drogas, porque a internet está em toda parte”, diz o Dr. Higuchi.

A Dra. Achab considera que na luta por impedir o vício da internet existe o desafio de como os jogos são projetados. Para ela, a presença de sistemas de recompensa (geralmente mediados por meio de "caixas de saque" virtuais) que oferecem itens virtuais como armas e armaduras ou recompensas "reais", como assinaturas de streaming de vídeo, são bandeiras vermelhas. “As recompensas levam os jogadores a acumular horas na busca de ganhos virtuais ou reais”, explica ela.

Para o Dr. Higuchi, os jogos online com vários jogadores ao mesmo tempo também são motivo de preocupação. “Esses jogos proporcionam oportunidades de jogar e competir com os outros, o que seria atraente para a maioria das pessoas, mas  é especialmente atraente para aqueles que têm dificuldade em se socializar”, diz ele. Outro problema é quando há dinheiro envolvido. "Muitos dos meus pacientes falam sobre ganhar a vida com o jogo", diz ele. "Essa crença alimenta a patologia ainda mais.”

As abordagens que estão sendo usadas para tratar pacientes com transtorno de jogo online tendem a se concentrar em fazer com que o paciente reconheça seu vício e a reconectá-lo com a realidade. O Dr. Higuchi usa uma mistura de terapia comportamental cognitiva, desenvolvimento de habilidades sociais e programas de tratamento que enfatizam a atividade física. Já a Dra Achab usa psicoterapia para reconectar os pacientes consigo mesmos, seus objetivos de vida e seu ambiente social.

Até o momento, a tarefa dos médicos foi dificultada pela falta de consenso em relação à natureza da condição que estão tratando. “A falta de clareza em torno da definição de desordem do jogo não só dificulta o desenvolvimento de políticas adequadas de tratamento e de saúde pública, mas também impede o monitoramento e a vigilância eficazes”, diz Higuchi.


A decisão da OMS em incluir o distúrbio do jogo como doença (no chamado ICD-11, ou seja, na Décima Primeira Revisão sobre a Classificação Internacional de Doenças, em 2018) foi baseada nas conclusões de especialistas de mais de 20 países, bem como na evidência da crescente demanda por tratamento relacionado à internet. De acordo com a OMS, um diagnóstico de desordem de jogos é apropriado para uma pessoa que, durante um período de pelo menos 12 meses, não tem controle sobre seus hábitos de jogo, prioriza jogos sobre outros interesses e atividades e continua jogando apesar de suas conseqüências negativas.


Apesar de alguns estudiosos e claro, a indústria dos jogos, acharem a classificação um exagero, O Dr. Higuchi acha importante este passo para um diagnóstico mais claro e um maior reconhecimento do distúrbio. Ele também considerou muito válida a decisão da OMS de publicar diretrizes sobre atividade física para crianças menores de 5 anos, em que se recomenda, entre outras coisas, que crianças no primeiro ano de vida não devem ter tempo de tela e muito pouco no segundo, enquanto aquelas com 2 anos de idade a 4 anos, devem gastar não mais do que uma hora por dia na frente de uma tela. "É hora de definir limites", diz o Dr. Higuchi.

Esta é uma tradução adaptada do texto original em inglês que pode ser lido no WHO Bulletin, publicação oficial da Organização Mundial de Saúde (OMS).

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