Brasileiros que se atrasam: um produto made in Brazil

Brasileiros que se atrasam: um produto made in Brazil

Me corrijam se eu estiver errada, mas há 14 anos quando eu deixei o Brasil, pontualidade não era o forte do nosso povo. Ao mudar para Alemanha, encontrei minha turma já que sempre tive horror a deixar os outros esperando.

Mas apesar de pontualidade ser uma das regras da pátria por aqui, conheço vários brasileiros, que se atrasam e deixam os outros esperando na maior cara de pau.

Há alguns anos apresentei uma amiga brasileira recém chegada na Alemanha à uma outra amiga que já morava aqui há muito tempo. Foi amor à primeira vista, as duas se adoraram.  O único desconforto na amizade era que a recém chegada se atrasava invariavelmente para todos os encontros. “Meu filho demorou para se vestir”, “Tive que levar o cachorro para passear”, “Nossa, perdi o bonde”, “Não encontrei o restaurante” -  a brasileira atrasilda sempre tinha uma desculpa para os seus atrasos, ao que a brasileira pontualíssima sempre respondia: “Não há desculpa. Uma ou outra vez, qualquer um pode entender, mas no seu caso é hábito. Isso é uma falta de respeito crônica com o tempo dos outros.” De fato.

Uma vez marquei em um bar com uma amiga brasileira. Quem tem filho pequeno sabe o que significa “marcar num bar com uma amiga”. Significa uma operação logística que bobear começa três dias antes da data marcada. Seu cabelo vai ter que estar lavado, você vai ter que saber o que vestir, a baby sitter deve estar pontualmente na sua casa, o jantar vai ser planejado, você tem que chegar cedo no trabalho…  Enfim você praticamente está em uma corrida de obstáculos cronometrada para que no horário marcado você esteja linda e bem humorada tomando uma cervejinha com sua amiga. Bom, eu venci minha corrida, mas minha amiga - que não tem filhos - não.

Eu nunca me esqueço dessa história porque além de eu ter amargado quase uma hora sozinha em um bar enquanto o relógio da baby sitter estava rodando, a desculpa que ela me deu me fez quase cair para trás: “desculpa, eu estava cansada e precisei dar uma cochilada antes de sair e acabei me enrolando”. Oi??? Mulher, pelo amor de Deus não fala um negócio desse para uma mãe de duas crianças pequenas que tirou o último cochilo há 7 anos e meio atrás e mesmo assim chegou na hora.

Resolvi escrever este texto porque na semana passada fui de novo acometida por mais uma crime contra a pontualidade. Cabelereiro. Ok, a gente entende, se a primeira atrasa vai encadeando a coisa e todo mundo se atrasa, e como esse rapaz tem a agenda cheia, o negócio fica mais perigoso ainda.

Como eu estava num dia muito difícil, trabalhando de casa e com filho doente, resolvi me prevenir. Mandei uma mensagem perguntando se ele estava no horário. Ele disse que eu podia chegar 30 minutos mais tarde. Para mim foi ótimo, eu estava bem enrolada. Ao entrar no salão no horário combinado meu queixo caiu: ele estava acabando uma escova e tinha mais outra escova para fazer.

Custava ter me mandado uma mensagem? Gente, eu literalmente corri para não perder o bonde. Isso é exatamente o que minha amiga pontual disse: é falta de respeito. É você desconsiderar a importância do tempo do outro. Fico me perguntando se os brasileiros expatriados atrasildos são assim apenas com brasileiros, ou se eles tem a cara de pau de se atrasar com os alemães também.

Sabe aquela frase: “Você sai do Brasil, mas o Brasil não sai de você? Hummm…não sei se a gente devia seguir essa linha não. Uma abordagem mais legal é de tempos e tempos a gente se avaliar e fazer um check up cultural: o que da cultura brasileira você quer manter em você? O que não faz mais sentido? Como eu posso aprender com esta nova cultura que em que estou inserida e ser uma pessoa melhor?


Meu conselho para os momentos de crise cultural é: deixa só o melhor do Brasil em você. Tem muita coisa legal que deviam permanecer dentro de nós, aspectos das nossas personalidades que deveríamos nos orgulhar de ter e de sentir, mas tem um monte de coisa, como por exemplo, deixar os outros esperando que é mais do que feio, é brega. Brasileiro atrasildo para mim, cheira a mofo.

Camila Furtado mora na Alemanha e apesar de ter ficado muito brava na hora, saiu muito feliz do cabelereiro. Ganhou um descontão pelo atraso, a promessa de que isso não voltaria a acontecer e como de costume, o rapaz mandou muito bem no cabelinho made in brazil.

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