Meu filho vai começar na escolinha da outra língua mas só ouve português em casa, o que fazer?

Meu filho vai começar na escolinha da outra língua mas só ouve português em casa, o que fazer?

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É verão no hemisfério norte. Sol, calor, dias mais longos e crianças de férias. Mas para um grupo específico de mães é também um tempo de preparação. Quando o ano escolar começar, geralmente quando o verão estiver terminando, seus bebês vão receber o status de “oficialmente toddlers” e ingressar numa nova fase, o da pré-escola. Isto se obviamente as crianças nunca frequentaram uma creche, um day-care, como chamam os americanos. 

E assim, para algumas famílias é como um rito de passagem. Os filhos que estavam em casa, sob constante vigilância, vão ganhar o mundo (que exagero!). Bem, mas vão, com certeza, passar algumas horas sem você. 

É neste ponto que eu falo especificamente para mães brasileiras que moram fora do Brasil e que em tantos lugares (dentro e fora da internet) eu vejo se angustiarem com uma mesma questão: “O que eu devo fazer já que meu filho, até hoje, só ouviu português em casa e agora vai enfrentar uma escolinha em que todos à sua volta vão falar uma outra língua com ele?”.

A minha resposta é bem simples e direta: você não precisa fazer nada. 

Como assim???

Eu imagino e já passei por este tipo de apreensão. E eu listei aqui alguns pontos pra você refletir:

1- Crianças são esponjinhas, pegam tudo muito rápido. Eu me lembro do começo da pré-escola da minha filha, ela com 3 anos e eu apavorada de como ela estava se virando, já que em casa ela só ouvia português desde que nasceu. E a professora me tranquilizou: “Calma, mãe. Nesta primeira semana ela já decorou o nome de todos os coleguinhas”.

2 - Quando uma criança entra numa creche ou escolinha, ela não está  indo defender nenhuma tese, não é um mestrado, né? Risos. É um ambiente lúdico, em que as brincadeiras vão ocupar mais espaço do que as palavras. E ainda assim: a mímica e o apontar dos objetos soam bem naturais para uma criança, ou seja, ótimas maneiras para a sua esponjinha ir captando a outra língua com naturalidade. 

3- Para além da língua, existe algo absolutamente normal: o choro quando a mamãe vai embora. A criança reagir assim é uma situação que pode acontecer mesmo que você estivesse no Brasil. Então, muita calma nessa hora. Porque invariavelmente quando você voltar pra buscá-la, a professora vai dizer que logo depois ela parou de chorar. 

4- E não vai ser de uma hora para outra, só por causa da escolinha, que você deve mudar o disco. Começar a falar na outra língua com o seu filho, que não é a língua que vem do seu coração, só para ajudá-lo a desenvolver a outra língua só vai quebrar o elo com o português.

Eu sei que muitas famílias acham que precisam dar força à outra língua para facilitar a inserção dos filhos na outra cultura. Mas acredite: isto é desnecessário e pensar assim só vai fazer o nosso português perder uma força tremenda entre nossos filhos. 

Para a outra língua já existe o próprio país que estamos inseridos. Nossos filhos já vão absorver a outra língua na escola, com os vizinhos, nos filmes, no teatrinho, com os amiguinhos, no consultório do pediatra, no supermercado, enfim... no dia a dia. E para ganhar o português para os nossos filhos: só existe a gente nesse mesmo dia a dia.  

Pode ter certeza: aquela criança que um dia, aos seus olhos, era tão indefesa linguisticamente, vai ter uma fluência incrível na outra língua, a ponto de querer até te corrigir.

Fabiana Santos é jornalista, consultora para mães fora do Brasil e mestranda em Relações Interculturais. Ela mora em Washington-DC. É mãe de Felipe, de 14 anos, e de Alice, de 8 anos - a mesma que foi pra escolinha sem falar uma palavra de inglês e hoje é o “corretor automático” do inglês da família.



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