A primeira amiga

A primeira amiga

Minha filha, Letícia, tem 8 anos. Em janeiro houve a primeira reunião de pais na escola. Encontro de praxe onde nos apresentam a professora nova, explicam a programação para o ano e tal. Mas a professora nova, no entanto, falou que a mãe de uma criança especial queria se apresentar e dizer algumas coisas que ela achava importante a gente saber. 

A mãe do Pedro, então, contou que ele é autista. Ela explicou que como ele era novo na escola e as crianças não estavam acostumadas a conviver com uma criança especial, ela estava com muito medo. Disse que estava sem dormir de preocupação a semana toda pensando como seria o primeiro dia de aula. 

A mãe do Pedro deu ainda algumas dicas de como a gente devia falar para os nossos filhos sobre ele, como se comportarem com ele e disse que ele não se socializava bem com as outras crianças, que ele poderia gritar, atirar objetos. E que já aconteceu dele agredir uma criança. Pediu pra gente ter paciência e empatia. 

A professora garantiu que ele ia ter uma acompanhante e que não ia acontecer nada de ruim. Que ia ser um ano genial de muito aprendizado para as crianças com esse novo amigo.

Contei pra Letícia sobre ele e ela ficou super curiosa pra conhecê-lo.

Mas na volta do primeiro dia de aula, a Letícia chegou revoltada, brava mesmo. Falou que a professora exigiu que ela sentasse de dupla com o Pedro e que ele só ficava olhando pra ela, querendo mexer no cabelo dela e quando ela disse pra ele parar, ele começou a gritar e se jogou no chão. 

Não vou mentir pra vocês que na hora pensei - meu Deus, que absurdo, coitada da minha filha, ela não tem que passar por isso. Sem pensar duas vezes, abri o aplicativo da escola e escrevi um textão. Mãe protetora que sou, expliquei que eu até entendia que ele tinha uma condição especial mas como podiam fazer isso com a minha filha? Ela nunca conviveu com ninguém assim, como ia saber como tratá-lo e que meu medo era dele agredi-la. 

A professora, com toda delicadeza, me respondeu que foi o Pedro quem escolheu a Letícia para fazer dupla porque ela foi a única na hora da entrada que puxou conversa com ele. Ela pediu que fosse dada mais uma chance pra ele. Disse que o desconhecido assusta, mas ensina também. Que foi só o primeiro dia dele. Alegou que se eu estava do jeito que eu fiquei,  imagina a mãe dele.  Disse que se eu quisesse,  mudaria ela de lugar mas que tinha certeza de que íamos perder a oportunidade de aprender a conviver com as diferenças. “Imagina que belo exemplo você vai dar pra sua filha?”,  indagou a professora. 

Não vou mentir para vocês: caiu uma bomba na minha cabeça, foi um tapa na cara as palavras dela. Eu pensava: que ser ruim eu sou e que ser ruim eu estou criando; coitada da mãe, olha o que eu estou fazendo. Senti vergonha do textão, pensei: nossa, ela pediu empatia e olha o que eu fiz. 

Sentei com a Letícia, li a mensagem da professora. Ela me olhou e disse logo: “Ah mãe, não me obriga a sentar com ele não.”

Eu disse que não ia obrigá-la a nada mas que poderïamos dar mais uma chance pra esse amigo. “Conheço seu coração, sei que você vai aprender a aceitá-lo e ser amiga dele”, eu disse. 

Ela me olhou desconfiada: “Então tá, mas você sabe, né mãe, que ele é assim e pode fazer isso tudo de novo.” Eu falei: “Sei, Letícia, e você vai aprender a conviver com ele.”

O tempo passou e ela nunca mais falou sobre o Pedro. Eu também esqueci do assunto. 3 filhos em casa, a rotina maluca.

Até que na festa junina da escola encontrei o Pedro, a mãe e a avó. Na hora da dança, a māe veio pra perto de mim e disse que ele nunca tinha feito nenhuma apresentação e que ela estava nervosa demais, com medo de dar errado, dele fazer alguma coisa que não devia. Meu marido tentou acalmá-la : “Não tem problema, isso é só pra eles se divertirem!” Mas ela suava frio, esfregando as mãos sem parar.

Até que a turma entrou. Só que o Pedro parou na entrada da quadra e de lá não saía de jeito nenhum. A avó então começou a falar pra mãe: “Tira ele de lá, tira ele de lá”. E a mãe dizendo bem baixinho: “Não acredito que isso está acontecendo comigo”. As outras mães todas comentando: “Ué, o garoto parou na porta, o que aconteceu?”

A mãe só olhava pra ele quase que implorando pra alguma coisa fazer ele se mover, pra ela não ter que sair no meio daquela multidão pra tirar ele de lá. Ela falava baixinho “entra meu filho, entra”. Todas as crianças posicionadas. A professora parou, deu uma olhada pra Letícia, que já estava abaixada pra coreografia. Letícia levantou, foi até ele, falou alguma coisa no ouvido dele e ele andou com ela, se juntou à turma e se apresentou. 

Fiquei imóvel, juro por Deus, não conseguia fazer nada, me senti mal depois me senti feliz. Senti tudo, senti minha falta de empatia no começo do ano com ele, senti a dor da mãe que estava ali do meu lado que deve passar por cada situação, senti amor pela minha filha, senti orgulho. Pra vocês terem ideia, eu e meu marido não conseguimos nem tirar uma foto dela dançando. Estávamos atônitos.

Pedro dançou do jeito dele. Parava, dançava mais, mas estava claro que se divertia muito. A mãe aos prantos batendo palma, a avó filmando e explodindo de alegria. 

Já em casa, perguntei a minha filha o que ela tinha dito pra ele. “Eu disse pra ele: entra Pedro, ninguém vai olhar pra você, eu vou ficar com você.” 

Ela era só felicidade e eu também. Parece que uma coisa floresceu em nós, aquele dia aqui em casa foi mágico, estava todo mundo tão feliz e satisfeito. 

E aí no último dia de aula, antes das férias, veio mais uma surpresa linda. Pedro  deu um abraço super apertado na Letícia e disse: 

“Vou sentir sua falta, amiga!”

Sim, ele a chamou de “amiga”. A mãe dele e eu caímos no choro. Depois, ela me mandou uma mensagem falando que ele nunca teve uma amizade antes. Que esse afeto que ele tem com ela é uma coisa rara demais, nova pra eles. Me agradeceu por tudo. Falei pra ela do nosso começo e ela me disse: 

“É isso que as mães e os pais têm que entender. As diferenças existem e a maior prova de amor não está em dar tudo que seu filho quer ter e sim ensinar a ele tudo que ele precisa saber sobre fazer o bem pra ele e para os outros”. 

Priscila Fernandes, além de Letícia, tem outros dois filhos. A família mora em São Paulo, capital. Nosso blog agradece a Priscila por nos deixar compartilhar seu relato aqui.

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