Um intercâmbio que já completou 46 anos

Jane e Geni, em 1970 e em 2014. (Arquivo Pessoal)

Jane e Geni, em 1970 e em 2014. (Arquivo Pessoal)

Geni era uma garota carioca de 18 anos e frequentadora das praias da Zona Sul, quando deixou pra trás os 40 graus do Rio de Janeiro e desembarcou em 1970 no ultra conservador Estado de Iowa, no centro-oeste americano, sob uma temperatura de -15 graus Celsius (sim, um frio insuportável), numa cidadezinha chamada Colesburg (que literalmente não estava no mapa).

Muita gente já fez ou conhece alguém que passou por um“intercâmbio nos Estados Unidos”. Na década de 70, esta experiência era moda entre adolescentes brasileiras mais abastadas. Geni poderia ter sido mais uma intercambista que teve um “dad” e uma “mom”, melhorou a fluência no inglês e seguiu com a vida. Ou tudo poderia ter dado errado, afinal Geni caiu numa cidade que tinha exatos 365 habitantes, menos do que o número de moradores da rua em que ela morava no Méier. Mas não foi nem uma coisa nem outra.

44 anos após Geni ter deixado Colesburg, estou de frente pra ela e a irmã americana Jane num bar em Washington-DC. O mundo deu voltas mas elas nunca perderam o contato. Daddy e mammy continuam preocupados com a “filha”, como eram na adolescência dela. “Meu pai Buck me telefonou e disse para eu não ficar até tarde na rua, pois DC é perigosa à noite”, conta Geni, rindo da orientação do pai. (Ele faleceu em 2015, dois meses antes da Geni voltar à Iowa para mais uma celebração da formatura do High School).

Ela mora atualmente em Brasília, estava a trabalho na capital americana e a irmã saiu de Iowa só para passar o fim de semana com ela. As duas conversam como se nunca tivessem se separado. Além de Jane, Geni tem mais duas irmãs americanas: Anne e Judy. Jane ficou sendo a mais próxima porque as duas fizeram o High School juntas e dividiram o mesmo quarto. Depois dos sete meses de intercâmbio, Geni voltou para o Brasil e Jane continuou em Iowa. As duas se casaram e tiveram filhos na mesma época, e, por coincidência, se formaram e trabalharam na mesma área: saúde pública.

Geni explica que quando chegou a Iowa achou o máximo quando viu máquinas de lavar, secar e aspirador de pó enquanto no Brasil daquela época tudo ainda era na base da vassoura e do tanque de lavar roupa. Por outro lado, Jane diz que naquele tempo achou curioso (e ainda acha!) Geni ter empregada doméstica na casa dela no Brasil.

Ao longo dessas quatro décadas, Wanda, a mãe americana, nunca deixou de escrever cartas para Geni. Os pais americanos foram ao Brasil por duas vezes visitá-la em 1974 e 2001, conheceram os pais de Geni e mesmo sem falarem a mesma língua se entenderam muito bem. 

Jane foi ao Brasil pela primeira vez em 1979, já casada. “ Foi um grande choque cultural, eu nunca havia saído dos Estados Unidos”. O marido de Jane era colega das duas na época do High School. Elas acham graça ao lembrar que foi ele quem apresentou para elas as conversas por chat na Internet, em 1997, algo revolucionário. De lá pra cá a comunicação online é mais uma forma de contato que elas não dispensam. 

Depois que os filhos cresceram, Jane vai uma vez por ano ao Brasil. “Ela tem o quarto dela na minha casa, não abro mão disso”, explica Geni.  “Amo pamonha e galeto gaúcho”, diz Jane, que faz em casa, por influência da “irmã brasileira” , arroz e feijão toda semana! 

Geni já retornou a Iowa algumas vezes, numa delas na celebração dos 40 anos de formatura no High School. “Meus pais sempre me recebem como a filha querida que voltou pra casa”, se emociona Geni. 

Muito além do intercâmbio cultural, as duas acreditam que houve uma afinidade que derrubou fronteiras. Geni realmente têm uma família nos Estados Unidos, apesar de ter uma família no Brasil. Jane diz que o convívio com Geni acrescentou algo que eles não conheciam. “Beijos e abraços, tão comuns para os brasileiros, foi algo introduzido por Geni na minha família”, diz Jane. “Definitivamente nos tornamos mais amorosos uns com os outros por causa dela em nossas vidas”.

Fabiana Santos é jornalista, casada, tem dois filhos: Alice, de 5 anos, e Felipe, de 11. Eles moram em Washington-DC. Ela nunca fez intercâmbio. A mãe dela já fez, também em 1970, mas perdeu o contato com a família. Ela adoraria promover este reecontro.